Maestros da folia

Democrático - Músicos de BH fomentam o Carnaval ajudando leigos a serem agentes da festa

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Di Souza e Peu Cardoso estão entre os primeiros a abrir as baterias para amadores
JOÃO GODINHO
Di Souza e Peu Cardoso estão entre os primeiros a abrir as baterias para amadores

Uma lata de tinta e um pedaço de cano. Foi com esses “instrumentos”, assim, meio no improviso, que o artista visual Fernando Fonseca, 34, tocou pela primeira vez no Carnaval de BH, em 2012. “Eu não tinha instrumento, nem noção de onde ou como comprar um, aí aproveitei que meu pai tinha pintado a casa e usei a lata”.

Com pouco preparo mas empolgação de sobra, Fernando ‘bateu lata’ num bloco por cinco horas seguidas, despertando a admiração das pessoas ao redor. “No final, com a lata já toda amassada, dois caras vieram elogiar minha disposição e a pediram de lembrança”, conta.

A atitude do folião representa bem o espírito do Carnaval da cidade, nessa nova fase dos últimos anos, em que as baterias são formadas não só por músicos, mas por leigos que se dispõem a aprender a tocar, mesmo que na última hora. O que muita gente não sabe é que, ao redor desse movimento espontâneo, existe uma série de músicos profissionais “organizando a bagunça”, sobretudo com a realização de oficinas e ensaios abertos e, com isso, cuidando para que ele cresça cada vez mais.

Peu Cardoso é violonista e compositor, Di Souza é professor de música e trabalha com bandas independentes da cidade, Rafael Leite é diretor musical e desenvolve pesquisas e trabalhos na área de cultura popular, assim como Nara Torres. Eles são alguns dos que, sem apoio financeiro e às vezes com pouca estrutura, puxaram para si a responsabilidade não só de formar baterias que dão o ritmo do Carnaval na cidade, mas também de abarcar nelas os muitos foliões que, mesmo não tendo formação musical, querem fazer parte da construção da festa.

É graças a isso que hoje Fernando já não toca mais lata. Ele passou pela caixa, o surdo e agora pratica o timbal, que exige um engajamento maior. Como é um instrumento raro no contexto dos blocos de BH, ele foi chamado para tocar em cinco deles.

Diversificação

Mas nem sempre foi assim, como observa o maestro e coordenador do “Então, Brilha!”, Di Souza, 25. “Quando eu entrei pro bloco, em 2012, ainda tínhamos um Carnaval muito segregado, só músicos tocavam e as pessoas não se sentiam à vontade pra fazer parte daquilo. E eu, mesmo sendo percussionista, já passei por uma situação desagradável de querer tocar e não ser bem recebido pelos outros batuqueiros”, lembra.

Por conta disso, ele resolveu tentar diversificar a situação. “Tenho uma vivência na educação musical e, por isso, uma das bandeiras que carrego é a de que música não é só para músicos. Então, saí convidando gente que eu conhecia de todo canto pra participar do bloco também. Conseguimos reunir cem pessoas na bateria naquele ano”, conta.

“Logo depois veio o Peu, regente do Baianas Ozadas, na mesma toada e nossa ação acabou influenciando os outros blocos. Hoje todos já têm essa pegada mais aberta”, diz. No ano passado, os dois regeram baterias de aproximadamente 300 pessoas, a maioria sem envolvimento profissional com a música.

Pela internet

Como a frequência nos ensaios é heterogênea e sempre surgem batuqueiros na última hora, Di e Peu decidiram chamar mais dois regentes de blocos com propostas parecidas – Rodrigo Heringer, do Tchanzinho Zona Norte, e Rodrigo Magalhães, do Juventude Bronzeada – para produzir vídeos com orientações aos marinheiros de primeira viagem. O canal no YouTube “Ritmos da Rua – BH” publicou cinco vídeos com noções básicas de instrumentos, ritmos, chamadas e sinais que os quatro blocos vão utilizar. Em quase dois meses de existência, os vídeos acumulam quase 7.000 visualizações e 95 inscritos.

Peu Cardoso, 27, explica que teve essa ideia porque, tanto nas oficinas que o Baianas dá ao longo do ano, quanto nos ensaios, mais perto do Carnaval, sempre aparece muita gente nova. “Inclusive, sempre tem aqueles que chegam só no dia que o bloco sai e dá muito trabalho ficar explicando tudo toda vez. São vídeos para assistir antes dos ensaios”, afirma.

O nome do canal, segundo Peu, foi escolhido para remeter a uma característica marcante do Carnaval belo-horizontino: o ritmo vem da rua, é fruto do envolvimento das pessoas e não do que os músicos definem. “Os limites são dados pelas pessoas. Primeiro acontece na rua e depois a gente pensa como vai lidar com aquilo”, explica.

Para ele, esse é o grande diferencial da forma como a festa acontece por aqui. “Eu, pelo menos, não conheço nenhum outro lugar em que funcione assim, de a pessoa chegar no dia e tocar. Estamos fazendo musicalização em massa. A maioria das pessoas é amadora, os profissionais só vão cuidando para que dê certo. E é isso que enriquece, porque diversifica”, diz. “É um trabalho que a gente vai aprendendo enquanto faz e de acordo com o que temos disponível na hora”.

Gustavo Caetano, 40, fundador da Unidos do Samba Queixinho acrescenta que faz parte da “estratégia” identificar quem já é iniciado ou tem mais habilidade para ajudar no processo. “Ele vai funcionar como um reprodutor daquilo que já sabia ou aprendeu com a gente e ajudar os outros. Geralmente, todo mundo chega meio tímido e eles próprios vão se estimulando”, diz.

Além da diversidade de pessoas envolvidas, outro ponto positivo desse fenômeno é a própria valorização dos músicos. “Quando a pessoa põe a mão na massa e entende o investimento que é necessário para aquilo dar certo, isso é muito positivo”, opina Nara Torres, 29, regente e fundadora do bloco Chama o Síndico.

O orgulho de ensinar e o prazer de aprender

Médicos, desembargadores, advogados, policiais e outras tantas áreas de atuação: quase 100% dos frequentadores das oficinas dadas pelo percussionista Rafael Leite, 34, na sede do Núcleo de Estudos de Cultura Popular (Necup), têm profissões não relacionadas com a música.

O ano inteiro o grupo se reúne no espaço para praticar, sempre nas quartas, às 20h. Para participar, basta chegar, já que as oficinas são gratuitas e os instrumentos, emprestados. “A procura aumenta na época do Carnaval, mas tem muita gente que me diz que vem pra aliviar estresse, cabeça cheia”, diz o músico.   Afinal, a sensação não só de tocar, mas fazer isso coletivamente, é transcendental. Ao menos é o que relata Polyanne Acerbi de Oliveira, 24, que deixou um emprego no ramo dos seguros para trabalhar no setor administrativo do Necup e se dedicar mais à música. “Eu sinto uma força quando estou tocando, parece que ninguém pode me impedir de fazer nada, é uma liberdade muito grande”, descreve.   Entre os oficineiros, há pessoas entre 12 e 70 anos. Inclusive, segundo conta Rafael, os idosos falam muito que frequentam as aulas para fugir do ócio, da depressão, porque se distraem, fazem amigos.   As oficinas começaram há cinco anos, dentro do projeto Percussão Brasil – que, há mais de dez, desenvolve atividades de preservação e difusão de manifestações da cultura popular brasileira – como uma forma de promover a revitalização das baterias de escola de samba e de blocos caricatos de BH. Além das oficinas, o projeto também promove workshops temáticos de ritmos e trazem mestres de baterias do Rio de Janeiro para passar suas experiências.   “Sem desmerecer o pessoal que está enxergando o potencial do Carnaval da cidade nos últimos anos, eu sempre estive envolvido com isso, desde que vim de Montes Claros pra cá, há quase 20 anos”, conta Rafael, que atualmente é mestre de bateria da escola de samba Acadêmicos de Venda Nova e já passou pela Cidade Jardim.   O que não impede que a oficina seja procurada por pessoas interessadas também em tocar nos blocos, muito pelo contrário. Aliás, blocos como Baianas Ozadas, Alcova Libertina e Chama o Síndico também são parceiros de Rafael, tanto pela participação de seus membros nas baterias do projeto, quanto pelo uso do espaço do Necup para ensaios e oficinas, que alguns também promovem. “Atualmente, temos três ou quatro membros que vão sair na escola de samba, mas também são regentes. O que se desenvolve aqui é levado para os blocos, que funcionam como multiplicadores”, diz.   Amor à arte Quando um bloco como o Chama o Síndico não faz ampla divulgação de seus ensaios, que são abertos para qualquer pessoa (que leve seu próprio instrumento, já que o bloco não tem para emprestar), não é para restringir a participação a um determinado grupo, mas para fazer caber nas dimensões do bloco, que é auto-sustentado. “Não é por uma questão de controle, até porque Carnaval é falta de controle, mas nós temos uma preocupação musical. Já que tocamos canções de Tim Maia e Jorge Ben Jor, temos uma banda base com guitarra, baixo, instrumentos de sopro, cantores, e temos a preocupação de que todos da bateria possam ouvir a música”, afirma a musicista Nara Torres, 29, regente e uma das fundadoras do bloco. Como a coisa é feita por amor à arte e sem apoio de qualquer tipo, a estrutura de som é por conta deles. “Não temos condição de ter muita gente e manter o som equilibrado”, justifica.   E a dica geral para quem quer começar é basicamente dedicação. “Para qualquer atividade musical, o importante é estar sempre com os dois ouvidos muito abertos e, no caso dos blocos, ficar de olho nos regentes, que são pessoas que estão ali para conectar a multidão toda. No mais, é se divertir”, aconselha a musicista.   Porque não há falta de jeito que resista ao empenho. Foi assim que muitos daqueles que Rafael Leite julgou “azedos”, quando chegaram à oficina, se tornaram braços direitos com o tempo. “Muitos dos que eu pensei a princípio ‘pô, não leva o menor jeito’, provaram que estudar, tocar junto, criar um ambiente cultural são a chave para tocar bem”, garante.   A Unidos do Samba Queixinho também promove ensaios abertos o ano inteiro, normalmente em espaços públicos da cidade. O Queixinho tem uma particularidade que é ser uma escola de samba de rua, uma espécie de mistura entre uma escola tradicional e um bloco. “Eu tenho essa vivência com o samba em BH, sou de Santa Tereza e na minha infância eu acompanhava o bloco caricato Inocentes. Quis fazer uma reverência a ele, de alguma forma”, explica Gustavo Caetano, fundador do grupo.   Assim como o projeto Percussão Brasil, o Queixinho aposta na tradição das escolas de samba, tanto daqui quanto do Rio de Janeiro, para enriquecer o Carnaval de BH. Mestre Odilon, uma das grandes referências carnavalescas do Rio, é padrinho da escola e periodicamente ministra workshops para seus integrantes. “Ao mesmo tempo que é muito exigente, ele é muito humano e tem um jeito muito eficiente de transmitir seus conhecimentos”, diz.   Assim que passar o Carnaval, eles retomam o fôlego e a programação de ensaios volta em grande estilo: Já está acertada a vinda do mestre Nilo da Portela para um workshop.    É pra já!    Não espere o próximo Carnaval se aproximar para começar a treinar. Confira algumas oficinas que acontecem o ano inteiro:   Projeto Percussão Brasil - Oficina de capacitação de rítmica com ênfase no samba e suas derivações. Onde Necup (Av. Nossa Sra. de Fátima, 3.312, Prado, 3295-0716) Quando Quartas-feiras, às 20h Quanto Gratuita. Não é preciso levar instrumento    Baque de Mina Oficina aberta de Maracatu Onde Mercado das Borboletas - Av. Olegário Maciel, 742, 3º piso) Quando Quartas-feiras, às 19h Quanto R$ 60 (mensalidade) R$ 20 (aula avulsa). Não é preciso levar instrumento.   Baianas Ozadas Oficina de percussão com ênfase em samba-reggae Onde Necup Quando Para informações sobre datas e horários acesse facebook.com/baianasozadas Quanto R$ 8 (em média). É preciso levar instrumento.

 

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