Por eles, não por nós

iG Minas Gerais |

Os nobres deputados que compõem o legislativo mineiro não conhecem a Márcia. Mas deveriam. Iriam entender melhor a vida de quem merece auxílio. Aliás, teriam muito a aprender... Quando essa mulher acorda, todos os dias, o céu ainda está escuro. Arruma a casa. Prepara o café e esquenta o pão do dia anterior. Também já deixa o almoço quase pronto para adiantar a vida dos filhos. Não vai comer com eles. Mas, com sorte, esquenta algo, se sobrar, no fim da noite. Antes das 8h, lá vai ela pelas ruas do bairro. Faça chuva ou faça sol, nunca falta ao trabalho. E se orgulha de ser tão correta aos 50 e poucos anos. Anda uns bons quarteirões até chegar ao ponto de ônibus, que, normalmente, está lotado. Desce no centro, onde espera outro coletivo para seguir para o primeiro serviço. Casa de família. Ajeita a bagunça, lava e passa a roupa, leva o garoto para a escola. Às 14h, já está no comércio, onde trabalha no turno da tarde. São quase 22h quando entra no ônibus para voltar para casa. No primeiro deles. Normalmente está exausta. Às vezes, sai e chega sem conseguir pegar o filho caçula acordado. Sofre com isso. Márcia, brasileira, lutadora. Tira por mês quase dois salários mínimos. Sustenta três filhos e o marido, atualmente desempregado. Paga IPTU e outros impostos, além de todas as contas do mês: água, luz, telefone e aluguel. Sonha com a casa própria. Não tem nenhum auxílio. Se vira, única e exclusivamente com a força do seu trabalho. Ela é como outros milhares de brasileiros. Gente que batalha arduamente para arcar com as responsabilidades ao fim do mês. Ironicamente, a Márcia, eu, você e tantos outros cidadãos – que não usamos o poder público em benefício próprio – estamos pagando “complementos” para os “nobres” parlamentares que, nesta semana, aprovaram na Assembleia Legislativa de Minas Gerais o retorno do auxílio-moradia. Isso significa que os deputados vão receber R$ 2.850 por mês para custear despesas com habitação, independentemente se já possuem casa própria na região metropolitana. Vale lembrar que o valor independe do salário mensal de R$ 25.322,25. E, se para o povo já está ruim, pode, sim, piorar. É que os parlamentares buscam aumento. Querem o auxílio semelhante ao recebido pelo Poder Judiciário, cujo benefício é de R$ 4.377 por mês. Um cenário imoral num país onde o déficit habitacional é assustador. Minas, aliás, é o segundo Estado com maior falta de moradias. Os números são tristes e nada esperançosos para o trabalhador comum. Foram apontados em reportagem publicada ontem: “O auxílio-moradia destinado ao Legislativo, Judiciário e Ministério Público (aproximadamente R$ 127 milhões) daria para construir, por ano, 2.500 casas.” O que mais assusta é o retrocesso. O auxílio-moradia dos deputados estaduais havia sido extinto no fim de 2013 e comemorado pelos eleitores. Em função disso, no ano passado, os 23 deputados de fora da região metropolitana pediram o pagamento do bolsa-aluguel, o que fez o Estado gastar R$ 692 mil. E hoje, pouco tempo depois, cá está de volta o benefício para todos os parlamentares que quiserem dele desfrutar. Ou seja, se o Judiciário pode, por que, então, ficarão de fora? Não culpo a Márcia por levar consigo tanta desesperança, nem ela, nem nenhum de nós que acompanha a imoralidade de políticos que escolhemos. Enquanto isso, trabalhamos sem parar para manter o mínimo de dignidade. Isso, quem está empregado, é claro. A Márcia não quer mais votar, e não há como contestá-la. O deputado eleito com a ajuda dela está entre os 36 que votaram a favor da retomada do auxílio-moradia. Ele não conhece a realidade dela. Nem a dela nem a de outros tantos que acreditaram que ele beneficiaria o povo, não a si mesmo.

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