‘Ela queria ter alta do hospital para seguir trabalhando’

iG Minas Gerais |

Escultura de Tomie Ohtake na praça Pedro Melo, em BH
Leonardo Galvani Horta divulgaca
Escultura de Tomie Ohtake na praça Pedro Melo, em BH

São Paulo. Familiares, críticos de arte e artistas manifestaram seu pesar pela morte da artista plástica Tomie Ohtake, aos 101 anos, ontem, em São Paulo. Um dos filhos, Ruy Ohtake, lembrou a vitalidade da mãe, que trabalhou até os últimos dias, antes de ser internada. “O comentário que eu posso fazer é uma palavra só, em maiúsculo. BEIJO TRANSUNIVERSAL!!! Beijo trans-universal que atravessa o universo. Foram meses muito ricos. A vida dela, pela vitalidade que ela sempre teve, o vigor que ela sempre teve. Ela queria ter alta do hospital para seguir trabalhando”, afirmou.

Afonso Luz, diretor do Museu da Cidade, afirmou que ela foi “uma das últimas figuras que faziam a ponte entre as novas gerações e a abstração informal, que foi muito forte nos anos 40 e 50, especialmente no Brasil”. “Ela levou isso para além do que só havia na comunidade japonesa: sua arte já se confundia com a cultura brasileira”.

Para ele, Tomie é também uma dessas últimas figuras da transição entre a arte moderna e a contemporânea. “Ela não era uma modernista. Ela já se inseria num circuito mais global. É uma perda histórica. Poucos artistas no Brasil ganharam notoriedade para além do campo da própria arte. Ela virou quase uma entidade pública, que entrava pela arquitetura, pelo design etc”.

O colecionador Miguel Chaia destacou a contribuição de Tomie para os brasileiros. “Tomie era aberta para o mundo e completamente ligada ao campo da arte. Ela trouxe uma contribuição importante para a arte brasileira, desenvolveu permanente equilíbrio entre a geometria de tradição construtiva e a abstração informal, e incorporou a luz solar do Brasil nos trabalhos. Pessoa que foi sentido de mestra. Para mim, minha referência na arte”.

O diretor do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, conheceu Tomie nos anos 60, quando ela foi à Bahia e almoçou em sua casa. “Desde aquela época somos amigos. Eu ia à casa dela, ela ia à minha, ela gostava de comida baiana”, lembra Araújo. Segundo ele, a obra da artista foi evoluindo com o tempo. “Primeiro é um momento figurativo, depois ela passou para uma abstração esférica, e muitos japoneses experimentaram essa técnica. Depois, ela foi se libertando, as formas foram se abrindo. Ela se tornou uma pintora muito importante, sob o ponto de vista de espaço, de formas. Ela foi uma criadora de belas formas, sobretudo uma grande colorista. Ela enveredou pela escultura, sempre com muito talento”. O diretor a definiu como “uma mulher espiritualmente eloquente, com essa capacidade oriental e, ao mesmo tempo, uma brasilidade que ela vivia a cada momento”. “Ela poderia ficar mais um pouco, mas acho que Buda e Deus sabem o que fazer”, lamentou Araújo.

O curador e crítico de arte Fábio Magalhães, além de destacar a relevância de Tomie para a arte brasileira, lembrou que ela era muito presente nos eventos culturais da cidade. “Frequentadora de teatros, cinemas, concertos. Foi uma grande incentivadora de artistas. Teve uma vida belíssima. Viveu uma vida longa e produtiva”.

Aracy Amaral, crítica e curadora de arte, falou sobre a presença de Tomie na cidade de São Paulo. “Ela está muito presente na visualidade de São Paulo, seja no parque Ibirapuera, na avenida 23 de maio, no Memorial da América Latina. A memória dela vai ficar conosco. Ao mesmo tempo, tinha uma presença discreta, muito especial como personalidade, aparecia através da obra e não da persona.

Em nota, a presidente Dilma Rousseff lamentou a morte de Tomie Ohtake, a quem chamou de “artista única”. “A cultura brasileira perdeu Tomie Ohtake. A sua capacidade de reunir geometria e cor, movimento e placidez tornaram Tomie Ohtake uma artista única”, escreveu Dilma.

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