E lá se foram as ilusões

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souzza
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Quando mais nova, amava Carnaval, principalmente os passados em Boa Esperança, no Sul de Minas. Também nos velhos tempos do PIC, Iate e Automóvel Clube, quando minha turma de amigas e eu vestíamos fantasias bonitas e criativas, ganhando inclusive algumas premiações. Ao PIC, íamos de havaianas, ao Iate, não me recordo, ao Automóvel Clube, de melindrosas. Nem me lembrava mais disso, até encontrar numa coluna do Wilson Frade, em recortes amareladíssimos, algumas de nossas fotos. Santo Deus! E lá se foram os anos. E as ilusões. Carnaval era ótimo para arrumar novas paixões, fugazes e passageiras, como os dias dedicados a ele. E pior, geralmente por alguém de longe, já tendo a certeza de que “tudo, tudo iria se acabar na quarta-feira”. Droga! Nunca mais o menino de preto, com os cabelos lisos chegando ao ombro. Nós voltávamos, e eles ficavam nas suas cidades de origem. Quem sabe um dia... Talvez no vestibular – estudar na capital era quase o destino natural. Bobagem! Esse dia não chegava nunca, era mais fácil e rápido esperar pelo próximo Carnaval. Mas, até lá, outras paixões já ocupavam os pensamentos, afinal, aos 15 anos, elas surgiam como tsunâmis: rápidas e devastadoras. E o menino da roupa preta sumia como bruma no entardecer do esquecimento. É estranho pensar que hoje desligo a televisão para não saber de Carnaval. Gosto mesmo é de um refúgio silencioso e tranquilo. Sempre que posso, escapo da muvuca e, como de costume, telefono para minha mãe para ter notícias. Normalmente, ela me conta eufórica da beleza das escolas de samba. – Filha! Liga a TV que está maravilhooooso! – Mãe! A última coisa que quero ver é desfile. Com certeza está lindo, mas cansei! As músicas invariavelmente se repetem, os ritmos, idem, as mulheres cada vez mais nuas, mais expostas, bombadas e competitivas. Nem sequer me espantei com uma “modelo” que apareceu um dia na capa do “Super”. Durante o desfile na Sapucaí, usou exatos 4 cm de um tapa-sexo que, ainda por cima, caiu. Quis aparecer e apareceu, ela e seus “atributos”, que, pelo jeito, são peças fundamentais a sua ascensão nas passarelas da fama. Longe de mim ser puritana, mas tem coisas que, sinceramente... As peladas que me desculpem, mas imagino que os homens de antigamente sentiam muito mais atração. Bastava ver um pedaço de perna, um decote mais profundo, que a imaginação voava. Hoje, a banalização é tamanha que acaba o mistério, o desejo de querer ver mais. O negócio está tão escrachado e sem limites que até eles, os homens, se assustam. Segundo um amigo meu, assediadíssimo na praça, a libertinagem é tanta que está dando efeito contrário. Um tempo atrás, além do desfile das escolas, minha mãe contou entusiasmada que o neto de 15 anos estava namorando. Uma graça! Foi passar o Carnaval no interior e se apaixonou por uma das mais belas e disputadas garotas da cidade. Divertida, pensei: já conheço essa história! Menos mal que hoje, com a internet, as coisas tornam-se mais fáceis, os namoros a distância são mais simples e duradouros, as promessas e as trocas de palavras e fotografias, mais constantes. No meu tempo não era assim, só ficava a lembrança da imagem – pois até as fotos eram raras –, e a paixão pós-Carnaval era sustentada por cartas quilométricas. Até o momento em que as missivas diminuíam, para, enfim, desaparecerem. Enfim, outros tempos, outros Carnavais... Para a turma da muvuca, desejo muita diversão e alegria. E para aqueles feito eu, bons livros, boas músicas, ótimas caminhadas e um merecido descanso.

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