Novo disco de Bob Dylan soa tedioso e sem dinâmica

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Em seu discurso, Dylan se queixou do tratamento que recebe da crítica
Frazer Harrison
Em seu discurso, Dylan se queixou do tratamento que recebe da crítica

São Paulo. Há alguns meses, Neil Young lançou um disco (“Storytone”) acompanhado de orquestra. Dois meses antes, Lady Gaga e Tony Bennett haviam lançado “Cheek to Cheek”, uma coleção de clássicos da canção norte-americana. E agora chega às lojas o 36º álbum de Bob Dylan, “Shadows in the Night” (Columbia Records, R$ 25, o CD, em média, e US$ 9,99 – cerca de R$ 28 –, na iTunes Store), em que ele interpreta dez canções do repertório de Frank Sinatra.

Dá para entender Lady Gaga e Tony Bennett embarcando num projeto desses – ela atrás de respeito da crítica; ele, de sucesso nas paradas –, mas Bob Dylan? Ouvindo “Shadows in the Night”, a primeira pergunta que vem à cabeça é: “Por quê?”.

Dylan sempre se disse fã de Sinatra. Em sua autobiografia, “Chronicles – Volume One”, escreveu: “Quando ele (Sinatra) cantava ‘Ebb Tide’, eu ouvia tudo em sua voz: a morte, Deus e o Universo”.

Mas nos cafés do bairro boêmio de Greenwich Village, em Nova York, onde Dylan chegou em 1961 e fez sucesso cantando folk, não era bacana dizer que gostava de Sinatra. Sinatra era o mainstream careta e Dylan, o jovem rebelde. Dylan encarnava o anticrooner, um menestrel de voz fraca e nasalada que mostrou que, no pop, o texto é tão importante quanto a voz.

Seria fácil chamar “Shadows in the Night” de projeto de vaidade, se Bob Dylan não fosse Bob Dylan. Ele realmente não precisa disso. O repertório é impecável – “I’m a Fool to Want You”, “That Lucky Old Sun”, “Autumn Leaves” – e Dylan teve a sabedoria de não esconder sua vozinha no meio de uma orquestra, o que teria sido patético.

O cantor é acompanhado apenas por sua banda, com destaque para a pedal steel guitar de Donnie Herron. Mas as dez canções soam muito parecidas. Todas têm uma cadência plangente que, somada à voz de Dylan – que só parece funcionar em suas próprias criações –, resulta num disco tedioso e sem dinâmica.

É impossível evitar comparações entre as versões de Sinatra e Dylan, e é muito difícil que alguém prefira as novas. Duvido que “Shadows in the Night” seja ouvido daqui a 40 anos, como ainda ouvimos os clássicos de Sinatra.

Deve ficar na carreira de Dylan mais como curiosidade – ouça Bob cantando Sinatra! – do que uma adição relevante à sua discografia. E mostra que não basta ser gênio musical para interpretar qualquer coisa. Ninguém pode fugir de ser o que é. Basta imaginar o mico que seria Frank gravando “Like a Rolling Stone”. (André Barcinski)

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