Pinturas vêm da troca de olhares

Artista vai mostrar também vitrais, além de algumas cabeças de bronze em exposição no museu de Brooklyn

iG Minas Gerais | Deborah Solomon |

Objetivo. “Estou interessado na evolução interna do meu pensamento, não na evolução da minha pintura”, diz Wiley
Chad Batka / The New York Times
Objetivo. “Estou interessado na evolução interna do meu pensamento, não na evolução da minha pintura”, diz Wiley

Nova York, Estados Unidos. O pintor Kehinde Wiley disse que nunca viu seu pai durante a infância, nem mesmo por foto. Isaías D. Obot – cidadão nigeriano que veio aos Estados Unidos com uma bolsa universitária – voltou para a África após terminar seus estudos. Ele constituiu uma segunda família na Nigéria e seguiu carreira em planejamento urbano.

A mãe do artista, Freddie Mae Wiley, nativa do Texas, estudou linguística e se tornou professora. Kehinde é o quinto de seus seis filhos e tem um irmão gêmeo. Durante sua infância, ele conta, a família vivia da ajuda do governo, e o pouco dinheiro que ganhava vinha do brechó de sua mãe. A loja não tinha uma placa nem uma área específica, era apenas um pedaço de calçada em frente da sua casa na West Jefferson Avenue, em Los Angeles, mas todos na vizinhança sabiam que era a Loja da Freddie. Wiley se lembra das mercadorias: livros usados, molduras folhadas a ouro manchadas, estatuetas de porcelana de mocinhas coradas.

As crianças ajudavam a mãe a conseguir produtos andando pelas redondezas em um Dodge com escapamento estourado. “Essa era a parte mais constrangedora”, confessou ele. E acrescentou: “Quando você tem 11 anos, não quer ser visto vasculhando o lixo do vizinho. É a morte social”.

Nessa idade, tudo mudou. A mãe o matriculou em um curso livre de arte em uma faculdade estadual, e, de repente, ele descobriu como queria ganhar a vida; sua carreira se desenvolveu com velocidade notável. Estudou no Instituto de Arte de San Francisco, na Califórnia, antes de ganhar uma bolsa de estudos em Yale, em Connecticut. Chegou a Nova York em 2001 para um programa de residência artística no Studio Museum, no Harlem.

Então, Wiley ia para as ruas em busca de modelos – a princípio pelas calçadas do Harlem e, mais tarde, quando já tinha dinheiro suficiente, no exterior, na China, em Israel e em outros lugares.

Todas as suas pinturas começam com uma troca de olhares entre o artista e o modelo. Wiley descreve o processo: “É essa coisa do acaso, quando estou na rua e encontro pessoas que têm a ver comigo, seja por razões culturais ou sexuais. Meu modelo está enraizado no meu próprio desejo sexual”.

E acrescentou brincando: “A maioria das pessoas me recusa”. Os poucos que estão dispostos são convidados a vir ao seu estúdio para posar para fotografias que servem como matéria-prima para os quadros.

Wiley tem críticos que dizem que seu trabalho é estereotipado e repetitivo. Quer trabalhe em óleo, quer em aquarela, utiliza a mesma estratégia de inserir indivíduos negros em obras-primas brancas do passado.

Ele tem, no entanto, variado seus modelos ao longo dos anos: em 2012, para sua estreia na Sean Kelly Gallery em Nova York, acrescentou mulheres a sua lista de modelos. (“Foi ideia minha”, Kelly disse, explicando que incentivou Wiley a se diversificar.) Wiley também se aventurou na escultura e sua próxima exibição no Museu do Brooklyn incluirá seis vitrais, além de algumas cabeças de bronze que lembram os bustos de Jean-Antoine Houdon, famoso durante o Iluminismo francês.

“Estou interessado na evolução interna do meu pensamento, não na evolução da minha pintura. Se eu fizesse pinturas bajuladoras, pesadas, haveria críticas. É preciso seguir em frente.”

Justiça seja feita, ele tem apenas 37 anos, é jovem para um artista. Faria mais sentido falar sobre sua evolução quando ele tiver 60 ou 70. A gente se vê de novo quando essa época chegar.

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