Uma volta ao passado ou a permanência do velho?

iG Minas Gerais |

Foi pelas mãos competentes do professor emérito da UFMG Fábio Wanderley Reis que tomei conhecimento do livro de Reinhard Bendix “Construção Nacional e Cidadania” (publicado no fim dos anos 60). Naquele tempo, no DCP da UFMG, nós, alunos do mestrado, nos víamos, quase todos, como marxistas e chegamos uma vez a tentar boicotar o curso oferecido pelo professor Fábio. Havia colegas que se diziam althusserianos e que falavam em “corte epistemológico” ou iniciavam uma frase com um sonoro “todavia”, o que me deixava tonta. Havia luxemburguistas, trotskistas, gramscianos e eu correndo atrás daquela sabedoria toda, pois, diferentemente da maioria dos colegas, fizera direito, e não ciências sociais ou economia. Mas, aluna dedicada que sempre fui, me meti a ler Bendix, pois tínhamos de fazer uma resenha crítica. Se bem me recordo, dois aspectos me marcaram profundamente nas ideias daquele estudioso de Weber: a regressiva relação de consanguinidade no poder público e a progressiva impessoalidade das leis e contratos (para copiar palavras de uma estudiosa do autor), além, é claro, da progressiva extensão do direito de voto nas sociedades modernas ou Estados-nação. Pois tudo isso me veio à memória na semana que passou, com a posse dos novos deputados e senadores. Como poderia ter vindo com o escândalo do petróleo – em que as licitações nada tinham de impessoalidade, já que eram dirigidas ao chamado “clube de empreiteiros” pelos que ocupavam postos de mando na Petrobras ou os que obtinham as benesses do BNDES, por serem considerados futuros e necessários “campeões nacionais”. Vou me deter no caso do “novo” Congresso Nacional. Por incrível que possa parecer, nada mais, nada menos que 307 dos 594 parlamentares têm parentes na vida pública. Ou seja, no Brasil de hoje, conseguir um mandato ainda depende, e muito, dos laços familiares por consanguinidade ou por afinidade. (Ao que me lembre, essa última categoria não era mencionada por Bendix, pois examinava as diferenças entre o feudalismo ou o absolutismo e o Estado moderno e, portanto, focava a questão da hereditariedade por consanguinidade. Não importa). Importa é saber se o fenômeno vem crescendo ou encolhendo nos dias de hoje no Brasil. Em 1982, o professor Otávio Dulci apresentou ao PT um estudo sobre as famílias mineiras que haviam ocupado o Palácio da Liberdade: apenas 27 eram sortudas. Dentre os novos parentes entre si, há uma esdrúxula peculiaridade: o filho da senadora, e agora ministra, Kátia Abreu, embora se chame Irajá Silvestre Filho, adotou o nome parlamentar de Irajá Abreu. Espertinho, não?! De modo que, sem dúvida, assim como hoje há a bancada da bala, a bancada ruralista, a bancada evangélica, também há a bancada dos parentes, que, com certeza, vai lutar por alguns interesses próprios, como mordomias para a “família congressual”. Fico então pensando: esse fenômeno é sinal de modernidade ou apenas uma permanência do velho no novo, como apontava Bendix?

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