“Delator não é um traidor”

Responsável por nove das 12 delações da operação Lava Jato, Beatriz Catta Preta vira referência

iG Minas Gerais |

Defesa. 
Em setembro, no depoimento à CPI mista da Petrobras, em Brasília, Beatriz Catta Preta apareceu ao lado de Paulo Roberto Costa
ED FERREIRA
Defesa. Em setembro, no depoimento à CPI mista da Petrobras, em Brasília, Beatriz Catta Preta apareceu ao lado de Paulo Roberto Costa

São Paulo. Das 12 delações premiadas que a Lava Jato contabiliza, nove foram conduzidas pela advogada criminal Beatriz Catta Preta. Isso lhe custou o mau humor de alguns de seus pares, críticas de advogados renomados que repudiam esse expediente e preferem o caminho da clássica escola da defesa, com petições e habeas corpus endereçados aos tribunais em favor da clientela em apuros.  

Aos 40 anos, 18 de experiência, paulistana do Itaim-Bibi, pós-graduada na Fundação Getúlio Vargas em direito penal empresarial e especializada em ações sobre crimes financeiros, Catta Preta é uma advogada metódica, que se movimenta com discrição nos bastidores forenses. Não é midiática, esse é o seu jeito.

Traz no currículo, a perder de conta, peças de defesa de doleiros, empresários e outros alvos de intrincadas missões da Polícia Federal (PF). Atuou, por exemplo, nas operações Karpar e Suíça, que levaram ao banco dos réus executivos de instituições financeiras e investidores que se valeram da evasão de divisas e da lavagem de ativos para amealhar e ocultar fortunas lá fora.

Nesses e em outros episódios, a advogada criminal defendeu delatores. “Nenhum ficou preso”, diz, orgulhosa do feito. No mensalão, outro exemplo, ela defendeu um acusado que contou o que sabia e saiu livre de qualquer sanção.

Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da estatal, virou o suspeito número 1 da trama que depois se revelaria o maior escândalo da República desses tempos atuais.

Em agosto, a família Costa caiu em desespero, convencida de que pelo menos 50 anos de cadeia ele iria tomar. Crises de choro e agonia. Chamaram a advogada. A delação de Costa e as de outros três, igualmente sob a tutela de Catta Preta, são a alma da Lava Jato. “As delações são o grande divisor de águas dessa investigação”, avalia a especialista.

Depois do ex-diretor, quase simultaneamente buscaram sua banca os executivos Julio Camargo e Augusto Mendonça. Os dois mergulharam na delação e revelaram os caminhos da corrupção nos contratos bilionários da estatal.

Os relatos de Costa, cerca de 80, abriram a caixa-preta do cartel das empreiteiras e a paga de propinas a políticos. Ele nomeou 28 deputados, senadores, ex-governadores e até governador na lista dos que teriam sido contemplados com tais contribuições não escrituradas.

A primeira recompensa que conquistou foi o retorno para casa, no Rio de Janeiro, onde cumpre uma tranquila “prisão domiciliar”, longe do isolamento e da sombra do medo na custódia da Polícia Federal em Curitiba, base da Lava Jato.

A advogada não aceita o rótulo de traidor para o delator. “Discordo frontalmente. O investigado parte para delação como meio de autodefesa. Uma ação penal envolve prisão, perda de patrimônio, condenação. Não é traição, mas uma defesa de si, da sua família, do seu patrimônio”.

Trunfo Liberdade. Todos os acusados da Lava Jato que recorreram à advogada Beatriz Catta Preta estão livres. São nove ao todo – incluindo as duas filhas, os genros e a mulher de Paulo Roberto Costa.

Nova prisão Operador. Mário Goes, citado pelo ex-gerente de engenharia da Petrobras Pedro Barusco como um dos “operadores” do pagamento de propina no escândalo de corrupção na petroleira, se entregou à Polícia Federal neste domingo. Ele se apresentou em Curitiba às 11h40, acompanhado de um advogado. Goes teve a prisão decretada pela Justiça na 9ª fase da operação Lava Jato, intitulada “My Way”. Segundo os depoimentos de Barusco, Goes entregava “umas mochilas com alguns valores” que oscilavam de R$ 300 mil a R$ 400 mil, normalmente em sua casa.

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