Discussão sobre liberdade se torna mural em ateliê

O processo vai consistir de debates sobre formas de desenvolver o tema da liberdade de expressão

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |



Thalma é um dos cartunistas que expôs na Aliança em 1977 e retorna
Thalma
Thalma é um dos cartunistas que expôs na Aliança em 1977 e retorna

Além da exposição dos 23 cartunistas e da mesa-redonda, o “Je Suis Charlie, Uai” também inaugura na quarta-feira um “Manifesto Gráfico” em solidariedade aos artistas franceses mortos durante atentado à revista “Charlie Hebdo”, no dia 7 de janeiro, em Paris. O mural, resultado de uma intervenção no próprio espaço da Aliança Francesa, será produzido em um ateliê de criação que começa nesta segunda, sob a orientação dos artistas plásticos Wagner Braccini e Julia Panadés.  

Para Braccini, porém, o diálogo com a arte francesa começou antes mesmo do convite da Aliança. Em dezembro do ano passado, ele foi curador de quatro etapas de um projeto de intercâmbio com artistas da França, que vieram ao Centro de Arte Popular, no Circuito Cultural da Praça da Liberdade, trabalhar com colegas brasileiros.

“Eram oito franceses, entre artistas, diretor de museu, produtores, que vieram morar aqui. E houve um estreitamento de relações, criou-se um laço de amizade, em que eles passaram a fazer parte da vida da gente”, explica Braccini. Esse foi um dos motivos pelos quais a ideia de prestar esse tributo pareceu tão natural ao artista.

O outro foi que ele havia ministrado uma oficina com grafiteiros nesse projeto de intercâmbio. “Então, quando me chamaram para criar essa espécie de arte-manifesto, não pude recusar”, recorda. Braccini convidou alguns dos ex-alunos – entre eles, nomes conhecidos do grafite, como Dinho Bento e Pedro Miyamoto – para o ateliê, e cada um deles terá um espaço de cerca de 1,2m x 1,8m para deixar sua marca no mural. “Estamos em período de férias ainda, então muitos deles têm que viajar. Vão passar lá rapidinho para fazer seu trabalho e ir embora”, revela.

Contando com Braccini e Panadés, o ateliê já tem cerca de oito pessoas. Mas o orientador ressalta que a experiência vai ser um espaço aberto a quem quiser chegar e participar da elaboração do mural. “Vamos ter facilitadores, e eu vou estar lá orientando e dando suporte com materiais”, ele explica.

O processo vai consistir de debates sobre formas de desenvolver o tema da liberdade de expressão. Panadés, que foi professora de Braccini na Escola Guignard, por exemplo, vai trazer uma dinâmica com a qual ela já trabalha há algum tempo. “Na terça de manhã, ela vai fazer essa oficina de criação de desenho a partir de palavras. Apesar de o grafite não ter letras, ele conta uma história, então vamos ter essa junção, essa troca de experiências”, descreve Braccini, comparando o ateliê a uma espécie de mini-residência artística.

O orientador espera que essa coexistência e a interação de diferenças e individualidades artísticas sirvam para extrapolar a própria discussão sobre liberdade e tolerância para além de Minas e França. “Acho que, como artistas, nós temos que pensar um pouco sobre o que antecede todos esses ataques que são manifestações extremas de algo que nos cerca. Desde a internet, por exemplo, em que as pessoas se sentem no direito de violentar umas às outras porque têm a rede como escudo. Temos que pensar nesse processo de medo e ódio por que o mundo todo tem passado”, reflete.

Nesse sentido, Braccini pretende colocar em pauta desde as pequenas censuras, que coíbem os indivíduos no dia a dia, até os processos maiores, em que os grandes conglomerados de mídia cerceiam e monopolizam a informação que chega até as pessoas. “É a opressão de um sistema que não deixa a cultura falar por si, o que representa uma afronta à liberdade da formação de caráter de milhões de pessoas”.

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