Em busca de outros espaços

iG Minas Gerais | daniel toledo |

Ativismo. Trabalho da mineira Priscila Rezende contesta padrões impostos a afrodescendentes
priscila rezende/divulgação
Ativismo. Trabalho da mineira Priscila Rezende contesta padrões impostos a afrodescendentes

Enquanto em São Paulo, a ação “Presença Negra” surge como reivindicação de artistas e espectadores negros em relação à ocupação de galerias, museus e espaços culturais, a cidade de Belo Horizonte – assim como outras, em todo o país – testemunha a emergência de criadores igualmente interessados em questionar preconceitos raciais que, mesmo mais de um século após a abolição da escravidão, ainda condicionam a liberdade e a participação do negro na sociedade.  

“Entendo o meu trabalho como formas de romper um silêncio que corrobora com o racismo velado que ainda hoje existe no Brasil”, observa a artista mineira Priscila Rezende. Formada pela Escola Guignard, Priscila é criadora da performance “Bombril”, ao longo da qual usa o próprio cabelo para limpar panelas e questionar padrões de beleza ainda hoje impostos a afrodescendentes.

Atitude semelhante é compartilhada pelo artista Marcel Diogo, autor de obras que lançam críticas à recorrente associação entre negritude e marginalidade. Em exposição realizada no ano passado, ele levou ao Centro Cultural UFMG uma escultura que reproduzia um homem negro sendo enquadrado por um policial.

“Vejo, em trabalhos como esse, claras discussões sobre o que chamamos de ‘imagem pré-concebida do negro’. O que se discute, nesses casos, são justamente os espaços onde ele supostamente ‘deve’ ou ‘não deve’ estar”, analisa Marcel, atualmente envolvido em uma pesquisa sobre postais estadunidenses que fazem referência ao linchamento de negros naquele país entre os séculos XIX e XX.

No que toca à ação “Presença Negra”, Marcel chama atenção ao fato de que, muitas vezes, tanto a divulgação quanto a própria localização dos espaços culturais acabam servindo como mecanismos de segregação. “Como a grande parte desses espaços está na região Centro-Sul da cidade, quem mora na periferia acaba excluído dessas atividades culturais”, destaca.

“Sem dúvida alguma, os quase 200 anos de escravidão foram determinantes para a elitização de vários espaços das cidades – e isso inclui os espaços culturais. Parece importante, nesse sentido, tanto criticar o que está posto quanto sugerir novas situações, que ainda não estão postas”, completa o performer Fernando Costa. 

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