Entre a reverência e os excessos sertanejos

Chitãozinho e Xororó homenageiam ícone da bossa nova em 14 releituras oscilantes

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Dupla. As fotos de “Tom do Sertão” foram feitas por Junior Lima, que não colaborou musicalmente
junior lima/divulgação
Dupla. As fotos de “Tom do Sertão” foram feitas por Junior Lima, que não colaborou musicalmente

As nuances presentes nas letras de Antônio Carlos Jobim sobre a natureza, o gado, roseiras molhadas e o rancho sertanejo parecem suficientes para a dupla Chitãozinho e Xororó voltar ao mercado fonográfico com o álbum-homenagem “Tom do Sertão” (Universal Music). Apesar de acertar o tom da viola caipira que resgata a bonita raiz sertaneja nos arranjos, a dupla de maior sucesso no Brasil nos anos 1990 parece confundir aparentes afinidades que tem com Jobim com alguns abismos melódicos traiçoeiros. Sob direção artística dos próprios irmãos paranaenses, a produção de “Tom do Sertão” é assinada por Ney Marques, Edgard Poças e Cláudio Paladini. Foram eles que reuniram uma orquestra de cordas de 20 músicos, entre violas, violoncelos e violinos, dando um tom refinado aos arranjos sertanejos que também são encorpados por gaita, piano, percussão, violões, flautas, banjo e acordeom. O grande problema do álbum são as oscilações de personalidade em cima do repertório de Tom Jobim. De cara, o poético tilintar da viola caipira para imitar a introdução clássica de “Águas de Março” dura poucos segundos até perder seu brilho quando Chitãozinho impõe o agudo característico de sua voz nos delicados versos “é pau, é pedra / é o fim do caminho” – imortalizados no dueto de Jobim com Elis Regina, em 1974. “Estrada Branca”, parceria com Vinicius de Moraes em 1958 e marco de início da carreira de Tom Jobim, segue o mesmo caminho ao enveredar ladeira abaixo em uma espécie de balada sertaneja contemporânea, com bateria pulsante apagando a viola caipira, sem qualquer apelo emocional na interpretação dos sertanejos. Dos tropeços equivocados, Chitãozinho e Xororó reencontram a boa forma que consagrou a dupla em “Chovendo Na Roseira” (1974), que une com naturalidade a classe de piano e flauta ao banjo rural e potente de Marcelo Modesto, sob arranjo ousado de Lucas Lima. “Solidão” (1954), popularizada na gravação de Caetano Veloso no LP “Totalmente Demais – Ao Vivo” (1986), mantém a linha assertiva dos sertanejos. O arranjo regional do maestro Ruriá Duprat, abarcado pelo acordeom enfeitiçado de Toninho Ferragutti e os violões envolventes de Ney Marques e Paulinho Ferreira, dão uma força rústica na medida. Na releitura mais bonita do álbum, “Caminho de Pedra” (1958), marcada na voz de Elizeth Cardoso, a introdução sustentada por violoncelo e piano logo se rende ao acordeom, como se tivesse nascido no berço caipira, num arranjo que cai como uma luva para as vozes de Chitãozinho e Xororó. Entre derrapadas e esforços para retratar a obra de Tom Jobim, os irmãos paranaenses deixam um dos maiores compositores brasileiros do século XX na berlinda: Tom Jobim é admirado com singeleza em acalantos como “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1959), que fecha o disco com interpretação arrepiante da dupla, acompanhada apenas da viola, mas também é tratado dentro de uma inventividade descortês da dupla, ao vestir canções como “Chega de Saudade” (1963) com botas de esporas e chapéu de boiadeiro, forçando uma personalidade incongruente até para o lado mais rural do mestre Tom Jobim.

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