Baterias abertas para novatos

Crescimento dos blocos de rua da capital despertou no folião vontade de ser tornar instrumentista

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Aprendizagem. Turismóloga Camilla Antunes recebeu instruções para tocar tamborim durante ensaio do bloco de rua Então, Brilha!
LEO FONTES / O TEMPO
Aprendizagem. Turismóloga Camilla Antunes recebeu instruções para tocar tamborim durante ensaio do bloco de rua Então, Brilha!

Com o crescimento do Carnaval de rua da capital e os desfiles de multidões enterrando de vez a máxima de que “Belo Horizonte não tem vocação para a folia”, outro fenômeno se destaca: os não músicos querem, cada vez mais, fazer parte das baterias. O resultado disso são ensaios de blocos de rua lotados de novos instrumentistas que, como garantem os regentes, são bem-vindos.  

“É por querer participar. Sempre tive vontade de tocar tamborim. Quando soube que os ensaios seriam abertos, falei: ‘agora é minha chance’”, conta a designer gráfico Carolina Rios, 26, que passará seu segundo Carnaval em Belo Horizonte. “No início, demorei para pegar o ritmo, mas agora já decorei os nomes e estou saindo em vários blocos”. A arquiteta e urbanista Luiza Alana Souza, 25, também decidiu se aventurar nos batuques. “Há muito tempo eu nem gostava de Carnaval. Comecei a acompanhar os blocos, mas não tocava. Só que fui me envolvendo cada vez mais e resolvi fazer parte”, diz Luiza, também adepta do tamborim. “Está sendo uma experiência ótima. O pessoal dos blocos tem muita paciência e cuidado para ensinar”, completa. Treinamento. Em muitos ensaios, antes de a bateria se juntar para treinar, os naipes – grupos de instrumentos do mesmo tipo – se reúnem em micro-oficinas para passar os ritmos. “Eu tocava violão e cavaquinho, comprei a caixa e há três meses comecei a fazer aula em função do Carnaval”, explica o estudante de direito Pedro Oliveira, 25, que vai se arriscar na percussão pela primeira vez. Para o regente do bloco Tchanzinho Zona Norte, o músico Rodrigo Heringer, 28, reunir tanta gente nova nas baterias tem se mostrado um desafio possível e interessante, por possibilitar o acesso de muitos ao universo da música. “O Carnaval de rua leva em conta a possibilidade de democratizar o (ato de) tocar e quebra a ideia de que música é para alguns, associada à coisa do talento. Como qualquer linguagem, a música é para todos, e o Carnaval é importante para mostrar que todo mundo consegue”. Responsável pela bateria do bloco Então, Brilha!, o músico e educador musical Christiano de Souza, 25, conhecido como Di Souza, também defende a democratização musical. “Algumas baterias são mais fechadas. Mas ter mais de 300 pessoas tocando em um bloco é fruto dessa causa, de que o Carnaval é para todo mundo se divertir”. E como lidar com tanta gente nova no bloco? “A parte de cada um não é nenhum bicho de sete cabeças. O grande lance é conseguir conectar o pouco do que cada um faz dentro do todo, fazer soar uma coisa só. Mas dá certo porque existe um entusiasmo e uma empolgação que não se veem em quem é músico”, afirma Di Souza. Regente do Juventude Bronzeada, o músico Rodrigo Magalhães, 29, afirma que o Carnaval não tem peso de trabalho. “Eu não planejei fazer o que estou fazendo, fui engolido. Dá muito trabalho, mas estou gostando e aprendendo muito”.

Inovação Enquanto alguns se arriscam a aprender a tocar um novo instrumento, outros vão além e colocam o próprio bloco na rua. O percussionista Lauro Júnior, 43, se tornou diretor de bateria do bloco Sexta, Ninguém Sabe, que fará sua estreia na folia de Belo Horizonte na próxima sexta-feira. “A ideia desse ano era fazer um novo bloco misturando músicas de rock e uma bateria”, disse. O bloco se concentrará a parir das 17h na avenida Afonso Pena, 4.600, no Serra, na região Cento-Sul.

Saiba mais Preparo. Apesar da grande adesão dos iniciantes, alguns blocos têm optado pelo equilíbrio entre novatos e veteranos. “Buscamos fazer um processo equilibrado entre a abertura do bloco para as pessoas novas chegarem, sem nenhum pré-requisito ou preconceito, e por outro lado ter certa cautela na divulgação dos ensaios, para o número não extrapolar”, explica uma das fundadoras e regentes do Chama o Síndico, a musicista Nara Torres, 29. Vídeo. Para orientar o treino dos iniciantes, os blocos Então, Brilha!, Baianas Ozadas, Juventude Bronzeada e Tchanzinho Zona Norte unificaram seus sinais de regência e criaram vídeos mostrando os principais batuques. Os vídeos “Ritmos da Rua BH” estão disponíveis no YouTube. LP. O selo mineiro Vinyl Land Records vai lançar, na próxima terça-feira, uma coletânea de 19 músicas – selecionadas pelo músico e historiador Guto Borges – que fizeram sucesso entre 2009 e 2014 e marcaram a retomada do Carnaval de rua da capital. Batizado de “Deita no cimento!”, o disco conta com as marchinhas “Coxinha da Madrasta” e “Imagina na Copa”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave