Decisão traz paz a familiares

Três mulheres que fizeram suas disposições vitais contam como e por que fizeram essa escolha

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Precaução. A médica Cristiana elaborou testamento vital mesmo jovem e saudável para garantir que suas vontades sejam atendidas
Uarlen Valério
Precaução. A médica Cristiana elaborou testamento vital mesmo jovem e saudável para garantir que suas vontades sejam atendidas

Há quem ache mórbido escrever, ainda saudável, seu testamento vital. Mas esse é o melhor momento para elaborar o documento. “Depois de um diagnóstico de uma doença grave, o momento é muito permeado de emoções. E a pessoa precisa estar o mais consciente possível na hora de tomar as decisões. Por isso, quanto antes, melhor”, defende a médica Beatriz Birchal, presidente da Sociedade Brasileira de Tanatologia, regional Minas Gerais.  

Não deixar expressas essas vontades pode significar custos – emocionais e mesmo financeiros – imensos para a família do paciente em situação de fim de vida. “Na hora da decisão, nós vemos o estresse dos familiares, a divisão da família – pois, muitas vezes, os membros divergem”, afirma a médica.

Trauma. Duas situações traumáticas levaram a aposentada M. F.*, 81, a elaborar seu testamento vital. “Minha avó teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e, naquela época, sabíamos que não havia nada que pudesse ser feito por ela. Mesmo assim, eu e minhas irmãs quisemos que os médicos prolongassem sua vida. Ela ficou três anos no hospital. Hoje, quando penso nisso, tenho um arrependimento”, lamenta-se.

Anos depois, a mesma situação se repetiu com a mãe de M. F. A vontade de que a vida dela não fosse prolongada foi ignorada pelo médico, e ela também ficou outros três anos no hospital. “Meus filhos acompanharam tudo. Para que eles não sofram isso mais uma vez comigo, assim que eu soube da possibilidade do testamento vital, resolvi fazer”, conta.

Jovem. A escolha da médica Cristiana Guimarães Paes Savoi, 38, causou um choque em sua família em um primeiro momento. Jovem e saudável, ela resolveu deixar um testamento vital estabelecendo como gostaria de ser tratada no fim de sua vida. “Eu estipulo que se estiver em uma condição de fim de vida, não quero ser reanimada. Em caso de demência avançada, não quero ser submetida a manobras de ressuscitação, ventilação mecânica”, explica.

A decisão veio de sua experiência profissional. Médica especialista em cuidados paliativos, ela não concordava com o que via sendo feito nos hospitais. “Fui buscar alternativas porque, em nossa medicina, o que se faz é ir prolongando a vida”, diz. Ela afirma ainda que, depois dela, vários parentes e amigos também fizeram seus testamentos vitais.

*Nome ocultado a pedido da entrevistada.

Números

Cadastro. O Registro Nacional de Testamentos Vitais teve uma média de 50 documentos cadastrados desde setembro do ano passado, quando o banco de dados brasileiro foi criado.

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