Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo

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Só existem duas doenças eternamente incuráveis: a velhice e a feiura
Intervenção sobre “Páris e Helena”, de Jacques-Louis David (1788)
Só existem duas doenças eternamente incuráveis: a velhice e a feiura

Do alto das gloriosas muralhas de Troia o príncipe Páris contemplava, como nos últimos dez anos, a doce Aurora de dedos róseos se erguendo no horizonte de profundo azul. A cabeça loira apoiada no braço forte do amante, Helena suspirava. Páris disse: – Na alta madrugada, como em tantas outras, examinei impotente as inumeráveis fogueiras dos aqueus, que se estendiam como serpentes de fogo na planície ampla. Por que nunca se cansam de vigiar, fustigar e lutar? Helena respondeu, acariciando-lhe a enrugada fronte: – Querem vingança e as riquezas troianas, amado príncipe. Não se conformam, principalmente Menelau, o rei de Esparta, que eu tenha fugido dele para os teus braços, deixando vazio seu leito e inconsolável nossa filha Hermíone, de funesto futuro. VELAM OS AQUEUS Reclinado em amplo leito de macias plumas, Menelau examinava, contra o azul profundo do horizonte distante, sua taça de vinho, em ouro puro cinzelada. Menelau disse: – Na alta madrugada, como em tantas outras, admirei impotente as muralhas de Troia, altaneiras e orgulhosas, vendo-me sobre elas, a espada ensanguentada na mão. Odisseu, o arguto rei de Ítaca, respondeu, erguendo a própria taça. – O dia de tua vingança chegará, ó, rei de Esparta. Vejo que se aproxima a passos largos, tangido pelos touros sagrados de amplos cornos e largos dorsos. Há que ter paciência. Inevitável é vigiar, fustigar e lutar. PÁRIS SE ENTRISTECE – Lembras-te, ó, doce Helena, de como há dez longos anos te subtraí dos braços poderosos de Menelau para o meu leito feliz? Eras, então, como és, a mais bela de todas as mulheres, ainda que nascidas nos confins do mundo. – Os pretendentes – disse a ponderada Helena, de cabelos áureos – eram muitos, e a nenhum deles meu coração privilegiava. Foi preciso que Odisseu, o arguto rei de Ítaca, sábio acima de todos, pusesse fim ao impasse. – Lembro-me bem, ó, filha de Zeus – respondeu Páris, de anelados cabelos. – Propôs Odisseu que os pretendentes jurassem respeitar tua escolha, e tu escolheste Menelau, de quem te tomei. Mas há 20 anos foi essa escolha, doce Helena. Como o tempo voa, e com ele nossos mais adoráveis sonhos. Pensativo, Páris reclinou a cabeça, pois novamente entreviu, na loira cabeça da amada, inúmeros fios argênteos permeando o ouro intenso. E viu aumentadas, em volta dos olhos faiscantes, amargas estrias, assinalando a dura passagem do tempo. AQUILES VELA PÁTROCLO Morto por Heitor, que lhe fendera até o pescoço taurino a morena cabeça, Pátroclo jazia envolto em linho branco e ricos unguentos na pira funerária. Aquiles disse: – Herói imortal e amigo fiel, tu também havias de cair no campo de luta. Heitor, enganado pelo deus Apolo, comigo te confundiu e te deu morte em peleja justa. O mais nobre dos 28 heróis aqueus vencidos por sua espada e lança poderosas. Eu mesmo, o mais poderoso de nossos guerreiros, só dei morte a 22 troianos. Mas eu te vingarei. Heitor se baterá comigo, e sairei vencedor do embate terrível. Cabeça fendida e esvaziada de miolos pela fúria de Heitor, o outrora destemido Pátroclo deixava-se afundar no Hades, de onde não se retorna e onde não se é feliz. PÁRIS REFLETE SOBRE TROIA Aurora de dedos róseos, tendo se erguido no alto céu, desfez-se em leves névoas de pura luz azul e branca, despedindo-se dos mortais. Lentamente se apagavam as fogueiras dos bravos. Na extensa planície já se notava o movimento frenético de homens e bestas. Ouviram-se gritos e cantos. Disse Páris: – Os altos muros da gloriosa Troia sucumbirão à astúcia de Odisseu, conforme determinaram os deuses. Aquiles dará morte a Heitor com um único golpe e, durante nove dias, o arrastará atrás de seu carro, escarnecendo de meu povo. Devolverá o corpo esfacelado, para as tristes honras fúnebres, quando as súplicas de meu pai, o rei Príamo, forem capazes de comovê-lo. Terá valido tanto o que lutei por ti? Respondeu Helena: – Serás tu quem matará Aquiles, ferindo-o no calcanhar. Mas que será de mim, a desditosa e infeliz, desprezada por troianos e aqueus? Voltarei para o leito do rei Menelau, em Esparta, que se regozijará de me ter recuperado, embora envelhecida. ODISSEU RELEMBRA PENÉLOPE – Há dez longos anos deixei a gloriosa Ítaca e, com ela, meu filho Telêmaco, indefeso diante dos pretendentes ao meu trono. Resistirá Penélope ao assédio de cem pretendentes à sua mão e ao trono? Ardo em fogueira de chamas inclementes, que me corroem os rins e o estômago. Voltarei a vê-los e a recuperar o poder? E TUDO É NADA Disse Páris: – Por ti, apenas por ti e talvez pela minha vaidade, troquei a pacífica vida dos troianos pela guerra interminável. Repito: valeu a pena essa troca? Respondeu Helena: – Dei-te de mim tudo o que pude nesses dez anos, exceto as primícias. Mais não te dei por mais não possuir. Que desejarias ainda que não te pude dar? Disse Páris, como num lamento profundo: – Apenas o impossível: a eternização de tua juventude irrecuperável.

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