Vasto arquivo audiovisual também auxilia na pesquisa

Para Eduardo de Jesus, professor de cinema e vídeo da PUC Minas, a plataforma não mudou só o que veio depois dela

iG Minas Gerais | Fabio Correa |

Se ficou difícil para o videomaker independente sobreviver no meio de tantos apelos comerciais, a solução foi se valer do grande material disponível na biblioteca do YouTube, que acabou se tornando a grande memória audiovisual da internet. “Aquele catálogo em VHS que as pessoas tinham, no porão de casa está agora na internet”, conta o realizador audiovisual Vinícius Cabral.  

Além da TV Cocriativa e da produtora de mesmo nome, o carioca também toca o projeto musical The Innernettes, em parceria com o mineiro Christian Bravo. Na dupla, as músicas são feitas somente com reutilizações de comerciais e programas da década de 80 e 90, disponíveis no YouTube, que geram samplers para músicas e vídeos. “Como nos primórdios do cinema, quando se utilizava a mesma câmera para gravar um filme e projetá-lo, hoje as pessoas utilizam vídeos do YouTube para fazer vídeos e os colocarem no próprio YouTube, que se realimenta infinitamente”, destaca Cabral.

“Você tem a toda a história do audiovisual ali presente. Dá pra encontrar desde trabalhos experimentais, como de autores do cinema estruturalista, tudo no YouTube”, analisa a diretora e professora de cinema Patrícia Moran, da Universidade de São Paulo. “Você não corre mais o risco que correram André Bazin ou Gilles Deleuze (pesquisadores do Cinema), de falar sobre filmes dos quais você não se lembra mais. Isso democratiza muito em termos de pesquisa”, destaca a pesquisadora.

Para Eduardo de Jesus, professor de cinema e vídeo da PUC Minas, a plataforma não mudou só o que veio depois dela. “Quando o YouTube apareceu, diziam que tudo de novo ia aparecer nele”, comenta. “Mas ele acabou mudando também muita coisa para trás, no passado. É diferente do que ver o vídeo numa TV ou no cinema. É um outro jeito de fazer audiovisual, com outra densidade e outras informações”, analisa o pesquisador. Ele também conta que, se antes mostrava os vídeos em sala para os alunos, hoje, manda listas para que eles assistam em casa.

O repertório é vasto – há edições inteiras do “Jornal Nacional” de várias épocas, episódios de “Os Trapalhões” e filmes até então raríssimos, como “Bang Bang” (1971), de Andrea Tonacci, clássico do cinema marginal.

Outro filão educacional do YouTube é preenchido por vídeos que instruem o espectador a fazer desde receitas básicas de culinária até produzir o seu próprio aeromodelo. “Qualquer curioso pode ir lá e aprender, isso é incrível”, enfatiza Patrícia Moran. Mesmo assim, ela não acredita que os tutoriais sejam capazes de substituir o ensino de forma mais ampla. “É uma formação mais técnica. Ensino envolve conceito, reflexão. Mas o YouTube supre muito bem a parte operacional – e democraticamente”, conclui. 

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