Primazia sobre um percurso

Andersen Viana Maestro, compositor e multiinstrumentista

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

GREGORUSIPOFF / DIVULGAÇÃO
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Nascido em Belo Horizonte, Andersen Viana caminha entre a música erudita e a popular. Além de ter participado da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, já ganhou vários prêmios internacionais, sendo o mais recente deles uma residência artística na Argentina. Nessa conversa, dá sua opinião sobre o cenário erudito mineiro, fala de sua trajetória e de hibridismo musical.

Você foi um dos 12 maestros-compositores escolhidos entre toda a América Latina e Europa para participar da Primeira Residência Nacional de Composição Musical em Buenos Aires. O que isso vai significa para sua carreira?

Essa premiação foi me outorgada baseada nas qualidades artísticas e técnicas da minha obra para orquestra de sopros e metais. O envio de trabalhos por cerca de 50 compositores da América Latina e Europa foi feito anonimamente, e assim julgado. Além de uma generosa quantia em pesos, minha obra musical está sendo editada, difundida e interpretada pelas bandas oficiais da Argentina. Isto é o oposto de alguns concursos de que já participei no Brasil, em que alguns “chefões” decidem quem ganha ou perde. Infelizmente isso ocorreu duas vezes comigo em Belo Horizonte, no Festival Tinta Fresca, promovido pela Filarmônica de Minas Gerais. Choramingas à parte, acabei de firmar uma parceria com o talentoso professor Esteban Ariel D’Antona, pela qual já estamos trabalhando algumas composições que estrearão em Buenos Aires neste ano, nas orquestras em que ele leciona. Em sua trajetória, você já recebeu diversos prêmios importantes e compôs várias obras. Porém, sua primeira composição foi aos 13 anos e no estilo sacro. Nessa época você já imaginava que queria seguir a carreira de maestro/compositor?

Nunca imaginei alcançar o nível de excelência que possuo hoje. Isto foi decorrência de muitos anos de estudos e pesquisas. Essa primeira peça foi criada espontaneamente, unindo uma letra sacra à uma melodia de cunho tonal tradicional. Estava em meio à uma peregrinação com minha mãe. E com relação ao seu pai, você contou muito com a orientação dele? Ele foi, afinal, revisor e assistente de Villa-Lobos.

Sim, mas também com inúmeros outros bons professores, tais como Nelson Piló, Carlos Alberto Pinto Fonseca, David Machado, entre outros. A série das “Bachianas Brasileiras” e os choros passaram pelas mãos de Sebastião Viana (nome do pai), entre outras obras. Ele também gravou um disco fantástico com as obras de Villa-Lobos para banda sinfônica na época. A relevância da atuação do meu pai na formação de profissionais que atuaram ou vêm atuando na capital mineira e em várias cidades brasileiras, além das ações por ele desenvolvidas para a evolução do cenário musical de Belo Horizonte, têm sido objeto de estudo por parte de pesquisadores brasileiros. O fato de seu pai ser músico foi determinante para sua carreira?

Foi muito importante. A minha relação com ele, em particular, foi sempre muito profícua e nos mais variados sentidos. Fui um de seus alunos — de flauta e matérias teóricas. Até um pouco antes do seu falecimento, ele ainda me ensinava algo. Uma de suas últimas assessorias técnicas foi a de me instruir sobre a música para banda sinfônica, o que me valeu três prêmios internacionais, com direito a performances, diplomas e alguns milhares de euros. Como músico, você passou por vários instrumentos, como flautim, flauta, instrumentos de arco e outros. Como ter aprendido a tocar vários instrumentos é importante para um maestro?

Isso traz uma visão ampla e diferenciada das possibilidades dos variados instrumentos acústicos existentes e da resultante somatória das várias fontes sonoras. Mozart, por exemplo, tocava tão bem o cravo quanto o violino; Beethoven, o piano e a viola; Villa-lobos, praticamente todos os instrumentos. Para os compositores, arranjadores e maestros, quanto mais souber, melhor. O conhecimento não ocupa lugar. Como você avalia o cenário de música erudita atualmente em Belo Horizonte?

Toda vez que vou a um concerto na cidade, vejo a plateia batendo palmas entre um movimento e outro de uma sonata, de uma sinfonia, de um concerto para instrumento e orquestra etc. Isso significa que se perdeu coletivamente o correto entendimento dos elementos básicos da música. Isso se deve ao pouco caso que se faz dessa arte pela sociedade da atualidade. Mas isso vem desde que encerraram o estudo específico de música nas escolas na década de 70. Na maioria dos países do Hemisfério Norte, a situação é diferente. A música é tratada como se fosse matemática ou a língua natal. Desde a década de 90, estamos trabalhando para que o grande público brasileiro tenha um maior acesso ao conhecimento nessa área, por isso escrevi a fábula musical “A Cigarra e a Orquestra”, que é nosso maior sucesso popular multidisciplinar, que une educação musical e entretenimento. Você já participou da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais na década de 80, como enxerga o trabalho e a presença do grupo nos dias de hoje?

A melhor escola de música continua sendo a orquestra sinfônica. A OSMG, por exemplo, sempre foi muito bem conceituada no cenário nacional, e, por ela, passaram grandes músicos brasileiros, tais como Carlos Alberto Pinto Fonseca, David Machado, Marco Antônio Guimarães, Marco Antônio Araújo, meu irmão Marcus etc. A lista é enorme! Há obras primorosas feitas por eles. Pena que se faça tão pouco música brasileira orquestral no Brasil. Você desenvolveu um trabalho que aproxima o jazz da música clássica. Há um ponto de equilíbrio para se chegar entre esses dois caminhos?

Sim, o conhecimento. Alguns exemplos: a obra de George Gershwin, Claude Bolling, Astor Piazzolla, Bill Evans, entre outros. Eles tiveram estudo e conhecimento da teoria e prática musical acumulada nestes 2.000 anos de sistematização da música ocidental. Sintetizaram algo novo a partir disso, mas os autores clássicos são a base. Acredita que músicos que transitam entre o popular e o clássico tendem a ser mais reconhecidos do público?

Não necessariamente, mas há uma certa tendência a isso. Um bom exemplo seria o Dave Brubeck, que estudou com Arnold Schoenberg. A música intelectual é a base do meu trabalho, mas tenho aberto novos canais para a chamada música intuitiva. Tenho tentado fazer, desde a década de 80, um tipo de música que não se encaixe especificamente nem na música erudita, nem na música de cunho popular. Em diversas obras, acho que consegui realizar esse hibridismo estético. Atualmente tenho um acervo de 340 obras, que abrangem a música experimental, erudita, MPB, jazz, “música híbrida”, música eletrônica experimental. Por falar em público, para você quem seria o público que acompanha apresentações de música instrumental hoje em dia, seja clássico ou popular?

Meu tempo é escasso para tudo o que gostaria de fazer. Mas, pelo que avalio nos últimos anos, o público para uma música mais elaborada, instrumental, experimental ou jazz está diminuindo consideravelmente. O oposto também seria verdadeiro: o sertanejo universitário está em seu auge de popularidade. Estamos vivendo uma época difícil para a música erudita ou música “colta”, como a chamam os italianos.

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