Dez anos do YouTube

Plataforma completa, neste mês, uma década de fundação, com mudanças profundas no mundo audiovisual

iG Minas Gerais | Fabio Correa |

Plataforma criou celebridades instantâneas e revolucionou o audiovisual como nunca antes na história
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Plataforma criou celebridades instantâneas e revolucionou o audiovisual como nunca antes na história

No dia 14 de fevereiro de 2005, os norte-americanos Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim, ex-funcionários do site de transações online PayPal, registravam o endereço Youtube.com. Aparentemente simplória, a ideia de uma plataforma online para a postagem e reprodução de vídeos viria, nos dez anos seguintes, definir novos paradigmas e mudar a lógica do audiovisual – tanto para o público, quanto para realizadores.

Mais ainda, foi com o YouTube que a frase do artista Andy Warhol, de que um dia todos teriam seus 15 minutos de fama, se concretizou definitivamente: sem limites de idade, aparência ou inclinação filosófica – intencionalmente ou não.

Aqui no Brasil, não demorou muito para que o site desse um tapa – de luvas – na cara do público brasileiro, até então acostumado à televisão. Em 2006, a entrevista de uma veterana maconheira, que dizia não ser viciada mesmo fumando todos os dias, há 30 anos, divertiu milhares de espectadores. Era “Tapa na Pantera”, primeiro grande fenômeno do YouTube no país, que alcançou 235 mil acessos em uma semana.

Muita gente achou que se tratava de um relato verídico, justamente por não conhecer a protagonista: Maria Alice Vergueiro, veterana do teatro paulista, que já havia contracenado em peças de ninguém menos que Augusto Boal, Zé Celso Martinez e Gerald Thomas. Mas tudo não passava de uma brincadeira, improvisada na sala de sua casa, para a gravação de um filme de estudantes de cinema. “Uma amiga perguntou se podia postar, e, na época, eu nem sabia o que era YouTube”, relembra Vergueiro, hoje aos 80 anos. De lá, a fama saiu do circuito do teatro e se espalhou por tudo quanto é lugar. “Até hoje gostam de tirar uma casquinha comigo, quando me encontram na rua”, conta a atriz. “Eles me dão aquele sorriso amarelo como quem diz ‘poxa, você poderia ter falado mais’”, se diverte.

Para nossa alegria, o tubo virtual também transformou completos desconhecidos, sem qualquer pretensão, em figurinhas carimbadas da cultura pop brasileira. Há três anos, os irmãos Jefferson e Suellen da Silva Barbosa aproveitaram um dia de folga da mãe, Mara, para ensaiar o hino gospel “Galhos Secos”, composto em 1972. Resolveram gravar, e o resultado foi para a rede apesar da resistência do rapaz. “Uma amiga queria colocar no YouTube, mas eu achei que, como minha mãe tinha ficado irritada com o meu grito e a minha irmã estava com a saia muito curta, não era apropriado. Ela então editou algumas partes e colocou no canal dela”, lembra Jefferson, hoje com 22 anos, que se assustou, na época, quando o vídeo alcançou 5 milhões de acessos em menos de uma semana. “Só comecei mesmo a divulgar depois que fomos no programa do Faustão”, admite ele, que hoje faz turnês divulgando o disco, “Para Nossa Alegria”, já contracenou com Jessica Alba para um comercial e, no fim de 2013, teve de desmentir boatos de que havia morrido.

Produção. O surgimento do YouTube, no entanto, não ficou restrito apenas a produzir celebridades instantâneas. Para quem costuma ficar por trás das câmeras – ou dos celulares – foi uma verdadeira revolução. Produzindo vídeos desde 2001, o realizador Vinícius Cabral, 32, encontrou no YouTube uma saída para divulgar os trabalhos. “Antes de o YouTube aparecer, não tinha para onde o realizador enviar os trabalhos. Festivais e emissoras, por exemplo, tinha muita restrição com relação à linguagem e ao formato”, recorda Cabral. Além de possibilitar que qualquer um possa postar suas produções, o carioca radicado em Belo Horizonte enfatiza que o site supriu a carência que havia para assistir aos vídeos em streaming.

Assim, quando Cabral e o parceiro Igor Amin tiveram a ideia de reunir os vídeos que produziam sozinhos ou junto dos alunos nas oficinas que ministram, não precisaram se preocupar em construir um site próprio. Surgia a TV Cocriativa, um canal de YouTube com playlists organizadas por temas – e que também divulga produções de realizadores parceiros. “O site permitiu que a gente concretizasse essa coisa de TV virtual, sem precisar fazer uma nova plataforma”, conta Cabral, que hoje é sócio de Amin na produtora Cocriativa, com sede na capital mineira – cujo nome não é uma mera coincidência.

De lá para cá, nem tudo se manteve assim. A estratégia de veiculação de comerciais e a possibilidade de pagar para alcançar um maior público mudaram a lógica original da plataforma. “Hoje, empresários do YouTube estão presentes nas grandes feiras de TV, frequentadas pelos executivos das principais emissoras do mundo, convidando os produtores a fazerem canais no site”, diz o realizador. O canal de humor Porta dos Fundos, o maior fenômeno brasileiro do gênero, é o melhor exemplo da potência midiática da plataforma. “Diferente de quando apareceu, o YouTube é, hoje, a grande mídia audiovisual”, diz Cabral.

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