Abaixo a perfeição, abaixo a hipocrisia!

iG Minas Gerais |

Mesmo não gostando de MMA, não há como negar, do ponto de vista jornalístico, e até sociológico, que Anderson Silva é um dos maiores ídolos do esporte mundial atualmente. Para quem entende da modalidade, o que faço questão de não entender, até porque não consigo assistir a um “esporte” em que não há interrupção quando os participantes estão sangrando e quase se matando – um péssimo exemplo para as crianças, Silva é o melhor de todos os tempos. Tem uma história de vida mais que respeitável e venceu por seus méritos, que não são poucos, mas não é perfeito, como todos nós. Claro que ainda não está finalizado o “processo” em que ele é acusado de doping, mas será muito difícil escapar de alguma punição, mesmo que o lutador encerre a bonita e vitoriosa carreira depois de ser pego pelo uso de substância proibida. Como sempre acontece nesses casos, com raríssimas e corajosas exceções, o brasileiro alega inocência, mas não há como saber se ele, e todos os outros atletas que se deparam com essa situação, tiveram ou não a intenção de melhorar o desempenho irregularmente. Por isso, as punições devem ser, como são, pesadas. Só gostaria de saber porque atletas que são flagrados pelo uso das chamadas drogas sociais (maconha e cocaína – as mais comuns), que em nada ajudam na melhoria de desempenho, muito pelo contrário, são punidos da mesma maneira daqueles que ingerem substâncias para levar vantagem sobre os adversários? Os defensores dessas punições dizem que isso é para que se dê o exemplo à sociedade de que as drogas não levam a nada. Acho uma atitude meio hipócrita. Aliás, hipocrisia é o que não falta quando o assunto é droga. Um atleta pode se embebedar em público, fazer comerciais de bebidas alcoólicas, fumar cigarro, protagonizar propagandas de sites de apostas, mas não pode ter um pequeno traço de maconha no organismo. Vai entender! É óbvio que droga não combina com esporte, mas é patente que a sociedade, ainda mais em países atrasados como o nosso, não consegue resolver essa questão de maneira objetiva, sem interferência de setores que nada tem a ver com ela. Basta ver a cidade da Olimpíada de 2016. O Rio de Janeiro está em guerra civil devido ao combate ultrapassado e ineficiente ao tráfico. Só existe tráfico daquilo que é proibido. Não estou dizendo que é preciso liberar geral, mas do jeito que está não dá. O tráfico de drogas está por trás da esmagadora maioria dos casos de violência no nosso sofrido Brasil. Será que morre mais gente na guerra do tráfico ou por problemas pelo uso desenfreado de drogas, inclusive as lícitas? Será que alguém que fuma um ou dois cigarros de maconha por dia ou por semana vai morrer primeiro – por causa disso – daquele que bebe um litro de pinga ou fuma três maços de cigarro por dia? Cada um sabe de si. Voltando ao caso de Anderson Silva, mesmo que ele não tenha tido a intenção de se beneficiar, é triste ver um ídolo, até então intocável, gente boa, família, que trata todo mundo bem, envolvido em um caso como o que estourou nesta semana. Por outro lado, esse e outros tantos casos mostram que é impossível ser um pai de família perfeito, um profissional perfeito, um cidadão perfeito, enfim, um ser humano sem defeitos. Todos nós temos nossas fraquezas, e é preciso admiti-las. É o primeiro passo para melhorarmos. Abaixo a ditadura da perfeição! Abaixo a hipocrisia!

Sacada. Como sempre, a iniciativa privada está à frente dos governantes e começa a sacar que estender a mão para atletas que caem no doping é muito melhor, institucionalmente, do que só punir, nesse caso com retirada de patrocínio. Um dos parceiros de Silva já informou que continua com ele, e esse não foi o primeiro episódio desse tipo. Estão percebendo que não dá para lutar contra a condição humana, falível, mas recuperável.

Objetivo. Não sejamos ingênuos de achar que essas empresas fazem isso por que são boazinhas. Agem assim pelo fato de que uma parte considerável dos consumidores de seus produtos, uma amostra da sociedade, estar mudando de opinião quando o assunto é uso de substâncias ilícitas, muitas vezes uma doença, que requer ajuda. Pena que nossos legisladores não percebam a mesma coisa, e não só em relação à essa questão.

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