Dossiê revela elo com mensalão

Empreiteiro César Oliveira, que deu Land Rover a membro do PT em 2005, pagou propina à Petrobras

iG Minas Gerais |

Delator. Informações de Barusco ajudaram os investigadores a montar o quebra-cabeça do esquema
Botelho / SINAVAL
Delator. Informações de Barusco ajudaram os investigadores a montar o quebra-cabeça do esquema

SÃO PAULO. O dossiê entregue pelo ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco ao Ministério Público Federal (MPF) trouxe à tona um dos personagens do mensalão que levou parte da cúpula petista para a cadeia. O empresário César Oliveira, da construtora baiana GDK, foi apontado por Barusco como um dos empreiteiros que pagou propina ao ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque e ao tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Em 2005, durante o mensalão, Oliveira foi quem presenteou o então secretário geral do PT, Silvio Pereira, com uma Land Rover, avaliada na época em R$ 76 mil.

Das 87 obras citadas por Barusco, GDK fechou contrato em cinco delas entre maio de 2007 e maio de 2009 ao custo de R$ 750 milhões. As obras iam da construção e adaptação de uma rede de dutos na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, à reforma de gasodutos em São Paulo e no Nordeste. Na planilha entregue pelo ex-gerente à força-tarefa da operação Lava Jato, César Oliveira teria dado propina em quatro das cinco obras. O empresário teria pagado ao PT R$ 4 milhões em vantagens indevidas e a Duque e a Barusco, outros R$ 2 milhões. No contrato de reabilitação de dutos TNS, de maio de 2007, que custou R$ 125 milhões à Petrobras, o empresário teria desviado 1%, R$ 1,2 milhão para pagar a Duque e ao PT. Cada um, segundo a planilha de Barusco, teria ficado com a metade do valor. Em outubro, a GDK ganhou outra licitação para a construção de um píer na Baía de Guanabara. A obra serviria para melhorar o transporte de gás natural para a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc). Dessa obra, que custou cerca de R$ 200 milhões, a “casa” – representada por Duque e Barusco – ficou com R$ 1 milhão e o PT com outra parte igual da propina. A GDK começou a prestar serviços à Petrobras em 1994. Em 2002, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, os contratos com a estatal saltaram dos R$ 126 milhões para R$ 430 milhões. Com a ascensão do PT ao Palácio do Planalto, a GDK perdeu espaço na estatal. Para reverter a situação, Oliveira se aproximou do atual ministro da Defesa, Jaques Wagner — do qual o empresário teria sido um dos principais financiadores de campanha em 2002 para governador da Bahia. O ministro chegou a ter uma filha empregada na GDK. Em 2012, o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do processo do mensalão, Joaquim Barbosa, declarou extinta a punição ao ex-dirigente petista. Silvinho, como era conhecido, foi o único dos quatro ex-integrantes da antiga cúpula do PT que escapou do julgamento.

Saiba mais EUA. Um grupo de integrantes do Ministério Público Federal liderado pelo procurador geral da República, Rodrigo Janot, vai aos EUA para pedir apoio das autoridades americanas nas investigações da operação Lava Jato. Como o departamento de Justiça Americano e o órgão local regulador de mercados de capitais estão apurando as fraudes na Petrobras, o grupo irá pedir informações sobre o que está sendo apurado em solo americano. Apreensão. Na ação desta quinta, a Polícia Federal apreendeu 35 obras de arte, 518 relógios de luxo, cinco veículos de alto valor de mercado, grande quantidade de documentos e notas fiscais e munições. Até nesta sexta, o valor em dinheiro não sido calculado.

Miami Retorno. Investigado na nona etapa da operação Lava Jato, o empresário João Gualberto Pereira Neto, sócio da empresa Arxo, se entregou à Polícia Federal nesta sexta, após voltar de Miami. 

Propinas na BR Distribuidora chegavam a 10% São Paulo. Uma ex-funcionária da Arxo Industrial – novo alvo da Lava Jato – afirmou ao Ministério Público Federal (MPF) que constatou saques em espécie de até R$ 7 milhões para pagamentos suspeitos que perduraram na BR Distribuidora mesmo depois da descoberta do esquema na Petrobras. A BR Distribuidora é subsidiária da Petrobras responsável pela rede de postos de vendas de derivados. A figura central dessa nova frente de investigação – uma ex-gerente financeira – procurou o MPF espontaneamente e foi ouvida no dia 15 de janeiro deste ano. Entre 2012 e novembro de 2014, a testemunha afirma ter presenciado pagamentos de propina de 5% a 10%. “Para obter os contratos, a Arxo receberia informações privilegiadas da Petrobras e efetuaria o pagamento de vantagem indevida de 5% a 10% do total dos contratos com a BR Distribuidora)”, informou. Ela apontou e reconheceu, por fotos, o operador da propina no caso dos contratos, Mário Goes. Foi por meio dele que a Lava Jato estabeleceu a conexão entre o esquema investigado nas diretorias de Serviço, Abastecimento e Internacional, que arrecadaria propina para PT, PMDB e PP. Segundo a testemunha, o operador foi visto por ela pela última vez no ano passado. Goes foi o único a ter prisão preventiva decretada e está foragido.

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