A magrela e eu: tantas histórias

Para muitas pessoas, a bicicleta vai além de um meio de transporte, faz parte da própria vida

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Vitalidade. 
Aos 76 anos, seu Isaías garante que a boa saúde se deve às muitas décadas pedalando
LEO FONTES / O TEMPO
Vitalidade. Aos 76 anos, seu Isaías garante que a boa saúde se deve às muitas décadas pedalando

Eles não participam de grupos organizados ou de grandes movimentos a favor das bicicletas, mas estão lá, dia após dia, pedalando pelas ruas da cidade. Anônimos, e por vezes invisíveis, são muitos os ciclistas que há décadas têm a magrela como fiel companheira. Faça sol ou faça chuva, para eles, todo dia é dia de pegar a bike e se transportar para qualquer canto de Belo Horizonte. Na plenitude de seus 76 anos, José Isaías Pereira, mais conhecido como seu Isaías, não tem dúvidas: a saúde de ferro é fruto de uma vida inteira sobre duas rodas. Natural de Ponte Nova, na Zona da Mata, seu Isaías aprendeu a pedalar cedo, aos 5 anos, e, desde então, não largou mais a bicicleta. “A bicicleta para mim? É tudo”, diz. Hoje, a idade está longe de ser um problema, e ele pedala, em média, 16 km por dia, no trajeto do bairro Concórdia, na região Nordeste da capital, onde mora, até a região da Savassi, onde trabalha como porteiro em um prédio comercial. “Toda vida andei de bicicleta. E não troco pelo carro. Para a saúde da gente é outra coisa. Vou ao médico e ele diz ‘não sei o que você arruma’. Se não fosse por isso (pedalar), estava com problema de pressão e inchaço nas pernas”, afirma o porteiro, que pedala há 57 anos. Sempre acompanhado da magrela, seu Isaías viu de perto a cidade crescer e se transformar. “Antes era mais tranquilo. Hoje, o trânsito nosso é ruim, e o motorista não respeita a bicicleta”, lamenta ele, que, recentemente, adquiriu uma bike elétrica para poder chegar em casa mais rápido e cuidar da mulher doente. “Já tivemos melhorias, mas Belo Horizonte precisava mesmo era de mais ciclovia. Ela é o ponto inicial para ter mais gente interessada, já que alguns ainda têm medo, por causa do abuso dos motoristas”. O mecânico de bicicletas Leandro Costa Valente, 54, também pedala, há mais de 40 anos. Dono de uma oficina no bairro São Gabriel, na região Nordeste, ele conta que a sua própria história se mistura com o universo das bikes. “É uma das melhores profissões que existe. Trabalhar por sua conta e fazer o que gosta é bom demais”, se orgulha Valente, que há 25 anos conserta, reforma, pinta e adapta bicicletas. “São muitos anos fazendo isso. A melhor parte é que com a bicicleta a gente ganha saúde, evita de ter AVC (acidente vascular cerebral) e movimenta muito a circulação. E todo dia andar de ônibus não dá, o serviço é horrível. Da bike, a gente vê tudo à nossa volta”, diz ele, que já viajou até para o Rio de Janeiro pedalando. “Naquele tempo, o motorista tinha educação, hoje não podemos confiar”. Pedalando a Monark Barra Circular, adaptada por ele mesmo, Valente conta que toma fechadas de motoristas o tempo todo. “A população se acostumou a fazer coisas erradas. Eu, que ando há muitos anos, vejo o tanto de erro no trânsito. Se tivesse um guarda em cada esquina, o bloco ia acabar com o tanto de multa”, diz. “Mas a gente tem que continuar lutando. Os mais experientes têm que dar o exemplo. A rua é pública, e temos que respeitar os outros”. Empregada. O vendedor Salazar Fontes Severo Neves, 59, também tem uma história peculiar com a bike. “A bicicleta é minha funcionária. Não tem carteira assinada, mas me presta serviço diário”, brinca. De domingo a domingo, ele vende produtos naturais pela cidade, em cima da magrela. “A bicicleta me acompanha desde a infância, em Itapecerica, minha terra natal, como veículo de distração e de trabalho. Além do benefício de te servir, ela tem o benefício psíquico, age no combate à depressão, melhora a sua relação com o mundo e consigo mesmo, e isso tudo tem retorno psicológico”. O vendedor acredita que o futuro é das bikes, e que é preciso investir em ciclovias para estimular as pessoas a pedalar. “Depois das 16h, os carros não saem do lugar. Vai haver uma mudança nesse sentido. E isso não é crença, é fato, caminhamos para isso. As pessoas vão precisar aprender a usar a bicicleta, nem que seja a motorizada. Com a bicicleta, se ganha tempo e espaço”.

Amor pela bicicleta de mãe para filho, desde a gravidez A barriga de quase nove meses de gravidez não foi empecilho para a arquiteta Claudia Vilela, 33, continuar a pedalar. “Eu continuei andando como sempre fiz, e não senti muita diferença. O corpo ia mudando, mas eu continuava ativa, e fui me adaptando”, diz. Ela, que há uma semana deu à luz o pequeno Raul, conta que pedalou até um dia antes de o bebê nascer. “Eu andava devagar e evitava me esforçar demais. Me cansava menos andar de bike do que a pé”, afirma a arquiteta. Pedalando desde pequena, Claudia defende que a bicicleta é o melhor meio de transporte em pequenos deslocamentos. “Você sai tranquilo, não se esforça demais, chega muitas vezes antes que o carro e não precisa achar estacionamento. Além disso, você aproveita a cidade muito mais. Dentro do carro, você não vê a cidade”. Com pai e mãe ciclistas, Raul em breve estará pedalando por aí. “Antoine (o pai) já está pensando em como pedalar com ele em um sling junto ao corpo”, alegra-se a nova mamãe.

Mobilização Com intuito de chamar atenção para a necessidade de mais respeito a ciclistas e a quem utiliza veículos não motorizados, o movimento Massa Crítica levou cerca de 500 ciclistas às ruas de Belo Horizonte, no dia 30 de janeiro. O grupo, que se reúne toda última sexta-feira do mês, luta pelo compartilhamento seguro das ruas entre motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Confira o vídeo do último encontro em www.otempo.com.br

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