Pouco arrogante, nada genial

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

'O jogo da imitação' conta a história de Alan Turing, matemático inglês que ajudou seu país e aliados na Segunda Guerra
Diamond films/divulgação
'O jogo da imitação' conta a história de Alan Turing, matemático inglês que ajudou seu país e aliados na Segunda Guerra

Até dez anos atrás, desdenhar um filme como “televisivo” significava um uso limitado e óbvio da linguagem audiovisual, decupagem simplória e diálogos expositivos. Hoje, após “Mad Men”, “Breaking Bad” e “True Detective”, comparar algo a TV é quase um elogio. E “O Jogo da Imitação”, que estreia na cidade (confira roteiro nesta página), é um sintoma de como a curva se acentuou tanto que um filme aclamado se tornou a versão acanhada e pasteurizada de algo que seria bem mais ousado na TV.

O longa transforma a história excepcional do matemático inglês Alan Turing (Benedict Cumberbatch) em um filme... correto. Convocado pelo governo para trabalhar como criptógrafo durante a Segunda Guerra, Turing foi o gênio que decifrou o “Enigma”, código secreto utilizado nas comunicações alemãs durante o conflito – criando uma máquina que não só foi uma das grandes responsáveis pela vitória Aliada, mas que fez dele também o pai do que se conhece hoje como “computador”.

Além de gênio, Turing apresentava sintomas agudos de Asperger – em outras palavras, era um Sheldon da vida real: arrogante e intragável. E por último, mas não menos importante, ele era um gay enrustido. E com a quebra do Enigma mantida em segredo e utilizada como trunfo pela Inglaterra por mais de 50 anos, e o fato de que a homossexualidade era um crime no país à época, o destino de Turing não foi exatamente o de um herói de guerra.

Mais do que meramente reproduzir o outro gênio arrogante que interpreta na TV em “Sherlock”, Cumberbatch incorpora esse conflito interno do protagonista na postura física e no jeito de andar acadêmico, associada à arrogância usada como defesa por alguém que passou a vida com medo de que descobrissem quem ele realmente é. Mas é na fala que ele deixa isso bem claro: segura e direta quando Turing defende sua ciência, mas indisfarçavelmente gaga no trato social ou ao falar de sentimentos.

A performance deve muito ao roteiro de Graham Moore. Mesmo jovem, estreante e norte-americano, ele capta com competência o sarcasmo rápido e inteligente do humor inglês, especialmente nas cenas iniciais, ressaltando a dificuldade do gênio de Turing – que era ao mesmo tempo seu maior trunfo e seu maior obstáculo.

E ironicamente espelhando esse paradoxo do personagem, o talento de Moore em escrever ótimos diálogos e cenas redondinhas acaba sendo o maior problema de “O Jogo da Imitação”. O roteirista acha que pode resolver tudo em uma cena. A mudança dos colegas de Turing, que estavam contra ele e se colocam a seu favor acontece em uma cena. E o drama e a violência sofrida por Turing após a guerra são resumidos a uma “grande” cena no final do filme para render uma indicação ao Oscar a Cumberbatch e Keira Knightley.

E especialmente nesse último caso, uma cena não é o bastante. “O Jogo da Imitação” faz a escolha de ser uma celebração do trabalho de Turing durante a guerra, com o que aconteceu depois sendo uma nota de pé de página infeliz. O resultado é uma mistura mais divertida de “Uma Mente Brilhante” com “O Discurso do Rei”, que deixa a atrocidade cometida pelo governo britânico passar com um tapinha nas costas, ignorando os momentos difíceis e as cenas que mostrariam que o problema era o sistema, e não Turing.

Em vez de mostrar, o longa prefere repetir isso no refrão-tema “às vezes, as pessoas que ninguém espera fazem as coisas que ninguém imagina” – que parece associar confusamente o ser gênio/especial com ser gay. E o diretor norueguês Morten Tyldum (que não aparece só no último parágrafo por acaso) confia cegamente nesse roteiro e nos seus atores – e se limitando ao clichê de começar a cena em um plano mais fechado e abrir o plano com um leve zoom. O resultado dá vontade de ver o que cineastas ingleses como Steve McQueen (“12 Anos de Escravidão”) ou Andrew Haigh (“Weekend”) fariam com essa história. Do jeito que está, “O Jogo da Imitação” pode te deixar triste, ou até inspirado ao sair do cinema. Com um dos dois, ele causaria incêndio, indignação – um filme à altura do que a arrogância sem falsa modéstia de Alan Turing esperaria para si mesmo.

 

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