Trinta anos no ritmo do samba

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Mandruvá é o puxador do GRES Cidade Jardim e desfila com a escola na terça (17), na avendida Afonso Pena
MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Mandruvá é o puxador do GRES Cidade Jardim e desfila com a escola na terça (17), na avendida Afonso Pena

José Eustáquio da Silva já tinha sido vendedor de picolé, carregador de sacolão, cozinheiro e até descarregador de navio pesqueiro no Rio de Janeiro. Depois de um show, o Zé do Tamborim, como ele ainda era conhecido no fim da década de 1970, passou a ser Mandruvá. Tal como a lagarta verde que ataca e devora os coqueiros, Zé detonou com a alimentação cedida pela casa de show. O apelido pegou e veio para mudar o destino do jovem sambista de Timóteo. “Sem esse apelido, o Zé Eustáquio nunca teria chegado onde chegou. Tudo pra ele começou a partir da criação desse personagem”, conta Mandruvá, que comemora, neste domingo (8), seus 60 anos de idade e 30 de carreira no show que faz na Quadra da Escola de Samba Cidade Jardim.

Testemunha ocular da evolução do samba e do Carnaval de Belo Horizonte, Mandruvá deve reunir, na apresentação, várias épocas do ritmo. Músicas já consagradas e outras ainda inéditas ganharão espaço no repertório, bem como no disco duplo que o cantor e compositor deve lançar até o fim do ano.   “A música não tem idade. E muito menos raiz. O samba custou a ser considerado MPB e com muita luta ele foi reconhecido. O samba é um urso: ele hiberna por um tempo, mas sempre está aí. Tudo que é ritmo dá samba. Lambada vira samba, rock, sertanejo... Quem faz o Carnaval, por mais que tentem pintá-lo com outras caras, é o samba”, afirma Mandruvá, autor de quatro dos sambas-enredos que irão desfilar na avenida Afonso Pena nos dias 16 (segunda) e 17 (terça). O principal deles, “Tutti Maravilha Nós Sambamos com Você”, do G.R.E.S. Cidade Jardim, sobre o radialista, será puxado pelo próprio compositor.   Sobre o Carnaval de Belo Horizonte, que este ano promete ganhar proporções históricas, Mandruvá prefere esperar para ver, apesar de não conseguir disfarçar o desapontamento pela exposição midiática dos blocos de rua em detrimento do trabalho das escolas de samba e dos grupos caricatos.   “Nossa capacidade de força é bem menor do que dessa nova geração do Carnaval. São pessoas que têm formação acadêmica e muito poder de organização, de comunicação, de aglutinação das pessoas. A única coisa que resta pra gente e que ninguém vai nos tomar é a categoria da arte. Mas se vai ser pra permanecer a boa vontade do samba, que venha pra ficar esse Carnaval. Pode tudo, só não pode acabar com o samba”, sentencia.     Modesto E mantendo a coerência à fala humilde e à mania de referir-se a si mesmo na terceira pessoa, Mandruvá faz aniversário, mas quem ganha homenagem são seus amigos. No total, serão 21 honrados, para brindar o “prazer de ver o negro chegando aos lugares que merece”.    “Pode colocar aí, a gente não gosta de fazer aniversário não. Tem sambista que comemora umas três vezes no ano, sabia? A gente não, a gente só comemora quando a data é especial. Só depois de 30 anos que a gente tá fazendo alguma coisa pelo Mandruvá. A gente tem mais ou menos umas 400 composições, que já fazemos há mais de 20 anos. Vamos mostrar e registrar isso tudo agora. Mas a minha alegria mesmo é honrar quem sempre esteve aí com a gente. A minha felicidade mesmo é ver que todo sambista tá trabalhando, tá tendo oportunidade. É ver todo mundo sambando, todo mundo feliz e levando o pão pra casa”.    Mandruvá 60 anos Comemoração dos 60 anos e 30 de carreira do sambista Mandruvá Quadra da Escola de Samba Cidade  Jardim (r. do Mercado, 150, Conjunto Santa Maria). Domingo (8), às 13h.  R$ 30 (homem) e R$ 20 (mulher) – inclui almoço.

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