Análise social travestida de comédia

Vencedor do Oscar de melhor filme, direção e roteiro, “Se Meu Aparta- mento Falasse” é Clás- sico Cinemark da semana

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

Lemmon e MacLaine foram indicados ao Oscar por seu trabalho no filme
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Lemmon e MacLaine foram indicados ao Oscar por seu trabalho no filme

É necessário muito talento para fazer de um filme sobre traição, melancolia, depressão, baixa autoestima – e um comentário quase existencialista sobre a solidão do homem na sociedade fordista – uma das melhores comédias de todos os tempos. Por “muito talento”, leia-se que é necessário Billy Wilder. Só mesmo um dos maiores diretores da Hollywood clássica para transformar uma comédia romântica despretensiosa em uma análise social pungente e atemporal sobre um sintoma que começava em 1960 e é universal hoje: a solidão e a depressão do sujeito comum nos grandes centros urbanos.

O resultado é “Se Meu Apartamento Falasse”, que o projeto Clássicos Cinemark exibe neste fim de semana. O longa acompanha C. C. Baxter (Jack Lemmon), contador de uma grande empresa que passa a alugar seu apartamento para os encontros extraconjugais de seus patrões. Um dia, porém, ele esbarra em Fran Kubelik (Shirley MacLaine), uma das secretárias iludidas pelo chefe, e acaba se apaixonando por ela.

“Em termos de comédia romântica”, como diria Baxter, esse é um dos encontros amorosos mais sombrios do cinema. O protagonista sabe que Fran está tendo um caso com um homem casado. Ela sabe que Baxter empresta seu apartamento para encontros fortuitos em troca de dinheiro. E, ainda assim, ao se olharem, os dois reconhecem um no outro a solidão, a desvalorização e a exploração de um sistema injusto que os levou até ali.

Wilder expressa essa ideia de formas inventivamente visuais, como o truque de filmar o escritório de Baxter em escala, com as últimas fileiras sendo apenas caixinhas de fósforo que ressaltam como todos ali se sentem como formiguinhas em um mundo de tubarões. Além disso, os diálogos têm a qualidade inigualável de sua parceria com I.A.L. Diamond, Lemmon revela um lado melancólico e obscuro pouco explorado pelo cinema, e MacLaine nunca esteve melhor. É com uma receita assim que um tema tão sombrio se transforma em dos clássicos mais aconchegantes que o cinema já produziu.

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