Ode cinematográfica à musa

Inédita na TV paga, cinebiografia “Lara” será exibida no canal Prime Box Brazil na próxima segunda-feira, às 22h

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

Romance. Christine Fernandes e Caco Ciocler vivem relação entre Odete Lara e o dramaturgo Guima
Riofilme
Romance. Christine Fernandes e Caco Ciocler vivem relação entre Odete Lara e o dramaturgo Guima

Diretora da cinebiografia de Odete Lara, Ana Maria Magalhães conheceu a musa do Cinema Novo no início dos anos 60. Ana era namorada do filho de Tônia Carrero, Lara frequentava a casa da atriz, e “nós passamos muitos réveillons juntas com a Tônia em Cabo Frio”, lembra a cineasta. O resultado dessa convivência, que por muito tempo se estendeu, é “Lara”, cinebiografia lançada nos cinemas em 2002 e que o Prime Box Brazil exibe pela primeira vez na TV paga na próxima segunda, dia 9, às 22h.

Ana explica que seu primeiro encontro com a força poderosa da artista Odete Lara, seria a convite de Toquinho. “Nós éramos amigos, e ele me convidou para o ensaio de um show. Era o show da Odete com o Chico (Buarque), que lançou a carreira dele. Foi a primeira vez em que eu a vi cantando – e atuando, de certa forma – no palco”.

Começou ali uma admiração que durou por décadas e se consolidou quando a atriz e diretora leu a autobiografia de Lara. “Fiquei muito impressionada, e o Antonio Calmon, um amigo em comum nosso, me falou que eu devia fazer um filme sobre ela”, explica a cineasta. Ela faz questão de ressaltar, aliás, que, apesar da coincidência em relação ao falecimento da atriz na última quarta, o licenciamento do filme já vinha sendo negociado há meses, e a previsão da estreia em fevereiro havia sido acertada já há algum tempo.

No longa, a diretora acompanha o início da trajetória de Lara (vivida por Maria Manoella e Christine Fernandes). O filme vai da infância, com os traumáticos suicídios da mãe (quando ela tinha 6 anos) e do pai (aos 18), e o começo de carreira como secretária no Masp, que levou a musa a se tornar modelo de “reclames” na TV Tupi. “Eles mandavam a Odete sorrir, ela se recusava, e acabou que isso vendeu. Virou a marca dela”, conta.

A personalidade forte da atriz, aliás, é um dos três traços que a diretora afirma ter tentado capturar em “Lara”, sempre em diálogo com a sua capacidade de superação. “A vida dela não foi fácil. Mas a Odete se jogou com tudo, e acabou sendo recompensada por tamanha força e ousadia”, argumenta a cineasta, em referência às muitas perdas familiares da musa.

O segundo aspecto é a importância de Lara para o ofício da atuação e o desenvolvimento das artes no país. “Naquela época, o cinema brasileiro ainda era muito associado à paródia. Era difícil, para nós, encontrar uma linguagem que não esbarrasse na caricatura, e a Odete trouxe uma autenticidade emocional, sem método, Stanislavsky, nem nada”, defende.

Ainda a esse respeito, ela ressalta que a atriz passou pela segunda geração do Teatro Brasileiro de Comédia, cantou no primeiro disco de Vinicius de Moraes e atuou no Teatro de Opinião. “Ela participou de momentos essenciais da cultura nacional entre os anos 50 e 80”, destaca.

Por fim, a diretora quis eternizar Lara como um dos grandes ícones feministas brasileiros. Sem pais, irmãos ou filhos e com casamentos fracassados, a atriz ousou ser uma mulher independente quando isso ainda era bastante incomum. “Ela vivia sozinha, saía sozinha. O filme é a história de uma mulher que sofre muito, mas encontra paz e uma redenção no budismo. Encontrei a Odete pela última vez em 2005, e ela me disse ‘estou prontinha’. Ela morreu em paz”, afirma.

O corpo da atriz seria cremado ontem em Nova Friburgo.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave