Bardo do Bar: Bataclã

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Com o sucesso que alcançou ao longo dos anos, graças ao ecletismo de sua clientela, ao endereço inusitado, na zona boêmia da cidade, e ao charme que advém de sua decoração entre kitsch e decadente, o Bataclã passou, de uns tempos para cá, a alugar seu espaço para festas e eventos culturais fechados. O último foi uma exposição de fotografias que justamente focavam o ambiente noturno do baixo centro, com sua exótica fauna de figuras à margem, que não cumprem o horário comercial. Dizer que as festas e eventos são fechados talvez não seja exato, já que ninguém barra a entrada dos fregueses habituais. Eles chegam, entram e ficam lá, destoando, como penetras na própria casa. Pois essa exposição de fotografias, que aconteceu há cerca de duas semanas, quase terminou em confusão justamente por causa desse conflito, de um espaço público que se oferece para um evento privado sem, no entanto, perder o caráter público. Um dos convidados da vernissage, já na alta madrugada, resolveu se engraçar com Irina, que estava sentada ao balcão com cara de poucos amigos, já que naquela noite o karaokê que ela tanto ama não funcionaria. Irina não deu atenção e ele se afastou, mas, bêbado, voltou logo em seguida. Não tenho certeza se ele, um sujeito magro, com corte de cabelo moderno, camisa xadrez e braços tatuados, já havia se dado conta de que Irina é travesti, e se justamente por isso se interessou, ou se estava iludido pela roupa invariavelmente provocativa e os traços realmente femininos da esposa de Getúlio, o dono do Bataclã. O fato é que Irina, depois de aturar o assédio por um certo tempo, apenas fitou o segurança Jamanta, que permanecia imóvel em seu canto, e com um gesto quase imperceptível pediu que ele intercedesse. “Ei rapaz, você não percebeu que a madame não quer conversa”, disse Jamanta do alto de seus 120 quilos distribuídos por quase dois metros de altura, batendo no ombro do rapaz, que, visivelmente muito alcoolizado, apenas balbuciou um “não enche”. Jamanta, que não é de muita conversa, pegou o sujeito pelo colarinho e o arrancou do banco ao lado de Irina. Antes que ele tomasse uma sova, contudo, a fotógrafa que estava expondo intercedeu e, postos os panos quentes, ficou tudo em paz. O rapaz, inconveniente, de qualquer forma, preferiu ir embora logo depois.

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