Droga assola mais os jovens

Centro de atendimento a dependentes do Estado fez levantamento que subsidiará políticas públicas

iG Minas Gerais | Rafaela Mansur |

Recuperação. 
Thiago Abbas abandonou as drogas e hoje trabalha no lugar em que buscou ajuda
ALEX DE JESUS/O TEMPO
Recuperação. Thiago Abbas abandonou as drogas e hoje trabalha no lugar em que buscou ajuda

Das 1.976 pessoas atendidas pelo Centro de Referência Estadual em Álcool e Drogas (Cread) em 2014, 85,1% começaram a usar drogas antes dos 18 anos – 17,6% iniciaram com menos de 12. “Isso não é exatamente uma surpresa, mas é ainda o maior problema com relação ao enfrentamento das drogas”, afirma o subsecretário de Políticas sobre Drogas, Clóves Benevides. Os dados são parte de um estudo sobre o perfil do dependente químico, feito pela Subsecretaria de Políticas Sobre Drogas (Supod). Segundo Benevides, o Estado tem várias políticas de prevenção, como o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) e as campanhas de conscientização nas escolas, mas a realidade ainda é dura para os jovens. “Temos muitas ações à disposição, o que falta é uma reflexão maior na sociedade com relação ao problema”, diz. Para Robert William de Carvalho, presidente da ONG Defesa Social, porém, o alcance dessas medidas ainda é baixo. “O Estado falha muito quanto à prevenção, e as vagas de internação são poucas para a necessidade”, avalia.

Outro problema, segundo ele, é o alto grau de aceitação de algumas drogas, como o tabaco e o álcool, na sociedade. “É comum crianças crescerem vendo os pais bebendo e isso torna o álcool, sem dúvida, a principal porta de entrada para as drogas”, ressalta. O resultado do estudo reforça a realidade percebida por Carvalho, visto que o álcool é a primeira droga experimentada por 36,9% dos entrevistados, seguida do tabaco, resposta de 31% dos usuários. A maconha, droga de entrada de 15,7% dos atendidos, foi a primeira usada por Thiago Bastos Abbas, aos 16 anos. Hoje, com 30, ele conta que chegou a utilizar cocaína e crack. “Eu não queria me tratar, mas minha família acabou me levando, porque cheguei em uma situação em que eu vendia coisas de casa para comprar drogas”, relata. Atualmente, ele coordena a casa de apoio que frequentou, a Associação Ministério Jericó, em Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte, e está há sete anos sem usar qualquer tipo de droga. Contexto. A renda de 77,7% dos usuários entrevistados não passa de três salários mínimos ao mês, e 41,3% deles estavam desempregados no momento do atendimento no Cread. Para Carvalho, essa dificuldade ajuda na volta às drogas, depois do tratamento. “Quando o usuário volta para o ambiente em que estava, a chance de recaída é grande, de até 80%”, diz. Segundo ele, no combate às drogas, além da prevenção e do tratamento, a reinserção social é essencial. “A dependência não é como uma doença, como a gripe, por exemplo, que acaba depois do tratamento. É importante reinserir o paciente na família e na sociedade”. As políticas de reinserção, de acordo com Benevides, são praticadas no Estado. “Todas as instituições têm que orientar os atendidos a refazer os laços familiares e voltar ao mercado de trabalho”, salienta. O subsecretário afirma que, por ano, cerca de 20 mil dependentes químicos são atendidos em várias instituições no Estado. Mas reconhece, porém, que “há sempre mais espaço para investimentos”.

ONG propõe jogo de prevenção A ONG Defesa Social criou um jogo de tabuleiro como um projeto de prevenção às drogas. Nele, os participantes devem responder perguntas para vencer etapas e entrar em novos territórios, como casa, escola e boate. No jogo, que deve ser distribuído em salas de aula de escolas estaduais, o objetivo é que as crianças e os adolescentes criem estratégias para dizer não para as drogas. O projeto está em fase de arrecadação de verbas.

Centro é porta de entrada O Centro de Referência Estadual em Álcool e Drogas (Cread) é, de acordo com o subsecretário de Políticas sobre Drogas, Clóves Eduardo Benevides, uma porta de entrada para o atendimento a dependentes químicos. Segundo ele, a importância dos dados colhidos com os usuários do serviço é a possibilidade de criar, por meio deles, políticas públicas de combate às drogas. O Cread fica na rua Rio de Janeiro, 471, no centro da capital.

Procura por ajuda parte do usuário Assim como 44,8% dos entrevistados na pesquisa, Gabriel Francisco Gonçalves, 26, decidiu procurar ajuda por conta própria. “Fui por vontade minha, porque percebi que, sozinho, não ia conseguir”, diz. Ele experimentou cigarro aos 14 anos e, depois, usou maconha, cocaína e outras drogas. “Percebi que estava perdendo a confiança e o respeito da minha família e dos meus amigos”, afirma. Hoje, ele está há cinco meses sem drogas.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave