Para Sapori, crimes podem ser reduzidos com ‘boas ideias’

Recém-empossado, sociólogo utiliza o velho discurso da ‘integração de forças’;

iG Minas Gerais | DAYSE RESENDE |

“O centro para menores é uma prioridade para mim. Ele é fundamental para que, nos próximos anos, a violência caia em Betim. Parte desses crimes é cometida por adolescentes. Não adianta só a prevenção social, só evitar que muitos se tornem criminosos. Temos que punir de acordo com a lei.”
João Lêus
“O centro para menores é uma prioridade para mim. Ele é fundamental para que, nos próximos anos, a violência caia em Betim. Parte desses crimes é cometida por adolescentes. Não adianta só a prevenção social, só evitar que muitos se tornem criminosos. Temos que punir de acordo com a lei.”

Betim bateu todos os recordes de violência, contabilizando 38 assassinatos em janeiro. A resposta da atual gestão, depois de 25 meses, foi a criação de mais uma secretaria municipal. Para ocupá-la, Carlaile Pedrosa chamou um sociólogo de renome nacional, mas que já chega com o carimbo de ser fruto de um acordo político com a cúpula do PSDB estadual. Com o desafio de diminuir índices de criminalidade, Luiz Flávio Sapori, ex-secretário adjunto de Defesa Social no governo de Antonio Anastasia, explica o que pretende fazer para garantir o mínimo de paz para os betinenses, ao mesmo tempo em que mantém sua moradia longe dos conflitos da cidade.

 

Betim vive hoje uma epidemia de homicídios. Foram 38 execuções em janeiro. O aumento é de 90% em relação a 2014, um índice recorde na história da cidade. Você está assumindo uma secretaria recém-criada pela prefeitura para combater a criminalidade. Como pretende enfrentar esse problema?

Não há mágica. Tenho que pensar em ações de curto e médio prazos. A princípio, devo reunir as polícias Civil e Militar, promotor e juiz da cidade em um aparato repressivo. É com a ação articulada desses órgãos que a gente pode reduzir esses homicídios, que crescem muito em função da impunidade. É isso o que eu vou fazer já nestes primeiros dias. Na próxima semana, eu já devo reunir esses órgãos da segurança pública, incluindo a Guarda Municipal, para conseguir entender o que está acontecendo. Quero tomar medidas operacionais já agora, em fevereiro.

 

Como sociólogo, como avalia o crescimento da violência? Acredita que a crise econômica pode agravar essa situação não só em Betim, mas em todo o país? A crise financeira pode, sim, ser um complicador, mas não maior do que o que já existem. O maior complicador é a impunidade, somada ao consumo e ao comércio das drogas. Esses dois fatores, por si só, já são explosivos. Geram assaltos, homicídios e roubos. Betim vive uma realidade que resta a todas as cidades brasileiras. Então, não há nenhuma solução milagrosa que um secretário ou um prefeito possa adotar para resolver o problema. O que posso fazer é gerir localmente o aparato de segurança pública, discutindo os problemas, articulando, identificando onde estão acontecendo esses crimes, quem são os autores, planejando operações. É isso que eu chamo de gestão municipal prática, operacional. Isso é possível ser feito.

 

O efetivo da Polícia Militar na cidade, segundo informações da própria corporação, é bem aquém do ideal para prevenir a violência. Quais parcerias o senhor pretende buscar junto ao Estado para aumentar o policiamento? Parcerias nessa área são difíceis. O que temos que fazer é cobrar do governo do Estado a implantação de um novo comando da Polícia Militar. Betim é a grande cidade de Minas Gerais com mais de 200 mil habitantes com menor contingente de policiais, principalmente de militares. E uma cidade com tanta violência não pode ter um efetivo tão restrito. Então, por isso, o batalhão é necessário. A prefeitura pode ajudar na obra, com o terreno, mas os homens vêm do Estado. Isso nós vamos cobrar. Mas, até que isso ocorra, vamos contar com a contribuição da Guarda Municipal, que hoje tem quase 200 homens. A nossa diretriz será a ação articulada da Polícia Militar com a Guarda, reforçando o policiamento ostensivo.

O estado, no governo do PSDB, prometeu para Betim a instalação de 37 câmeras de monitoramento, que poderiam ajudar no combate à violência, mas, até hoje, elas não foram instaladas. Como o senhor pretende agilizar isso? Basicamente, fazendo uma gestão de resultados. Vou nomear uma pessoa da minha equipe que vai ficar exclusivamente dedicada a desamarrar esses entraves burocráticos e ter a tarefa de pôr essas câmeras para funcionar. O centro de monitoramento está em boas condições na prefeitura. Já temos os monitores, além de guardas municipais e policiais militares atuando juntos. Então, vou a todas as instâncias ver onde está o problema, onde falta dinheiro. Intensivamente, diariamente, vou me reunir com a equipe e desamarrar os entraves técnicos.  

A maioria dos crimes está relacionada ao tráfico de drogas. Quais ações o senhor entende serem necessárias para combater o tráfico no município? Acredito que o tráfico é a grande matriz da violência no Brasil. Os jovens se armam e se matam por coisas banais. O tráfico gera muita insegurança, e Betim vive essa realidade agravada. A melhor maneira para reduzir esse problema, repito, é articulando os trabalhos das polícias Civil e Militar, além da Justiça. Temos que identificar grupos e fazer uma repressão qualificada a curto prazo. A médio prazo, temos que fazer a prevenção social. Isso não vai dar um resultado imediato, mas é fundamental para dar base. Temos que investir em projetos para os jovens, para que eles não escolham o tráfico. Essas inserções acontecem por meio da música, da cultura e da empregabilidade. O Estado já tem o programa Fica Vivo aqui, e vamos continuar trabalhando juntos nisso. A Fiat também tem um ótimo projeto aqui, o Árvore da Vida, e nós podemos aprofundar essa relação. Tudo que está funcionando bem nós vamos ampliar.  

O centro de reabilitação para menores infratores é uma reivindicação antiga das polícias Civil e Militar de Betim, que hoje fazem um trabalho de “enxugar gelo”. A prefeitura tenta há anos encontrar um imóvel. Como o senhor pretende fazer para que isso se torne uma realidade? Isso é uma prioridade para mim. O centro de internação é fundamental para que, nos próximos anos, a violência caia em Betim. Parte desses crimes é cometida por adolescentes. Não adianta só a prevenção social. Não adianta só evitar que muitos se tornem criminosos. Nós temos que punir de acordo com a lei e com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Vou me empenhar pessoalmente para tentar identificar esse imóvel. A prefeitura tem que fazer a parte dela. Logo, logo, vou procurar a Secretaria de Estado de Defesa Social e manifestar claramente o nosso interesse, a nossa obsessão em viabilizar esse centro socioeducativo.

Por inúmeras vezes o senhor afirmou, em entrevistas, que o crescimento econômico de Betim não resultou em investimentos proporcionais na segurança pública. Como o senhor acha que pode mudar essa realidade restando apenas dois anos de governo? A prefeitura tem limitações orçamentárias e financeiras, mas é sempre possível conseguir alguma coisa. Precisamos é de boas ideias! Com um projeto na mão, você consegue recurso na prefeitura e no âmbito federal. Tenho uma expectativa de que, pelas boas relações que tenho com a Secretaria Nacional de Segurança Pública, temos condições de conseguir verba para a cidade. O projeto tem que ser tecnicamente bem-elaborado. E essa é a minha intenção. Até meados de março, vou concluir um projeto. Agora, sem verba de Brasília, fica muito difícil.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave