Delator envolve mais 2 diretorias em esquema; Graça Foster não sabia

Um dos focos de corrupção envolvia, segundo Barusco, navios relacionados à exploração do pré-sal

iG Minas Gerais | Folhapress |

Graça Foster disse desconhecer comitê interno
Wilson Dias/ABr - 14.5.2013
Graça Foster disse desconhecer comitê interno

Em depoimentos na Operação Lava Jato, Pedro José Barusco Filho, ex-gerente de engenharia da Petrobras que assinou um acordo de delação com o Ministério Público Federal, relacionou contratos fechados em mais duas diretorias da companhia com esquemas de propina direcionados ao PT.

Segundo ele, também os contratos da Diretoria de Óleo e Gás e da Diretoria de Exploração e Produção implicavam o pagamento, pelos fornecedores, de um percentual em "comissões" que oscilava de 1% a 2% sobre o valor dos contratos. O delator, por outro lado, disse que os diretores da época não sabiam da corrupção.

Um dos focos de corrupção envolvia, segundo Barusco, navios relacionados à exploração do pré-sal.

Até aqui, são acusados nas diversas investigações decorrentes da Operação Lava Jato os ex-diretores das áreas de Serviços (Renato Duque), Abastecimento (Paulo Roberto Costa) e Internacional (Nestor Cerveró). Assim, com as novas menções, do total de sete diretorias da empresa à época dos desvios -a diretoria de Governança foi criada neste ano–, 5 já aparecem citadas como relacionadas ao pagamento de propinas.

Barusco declarou à força-tarefa da Lava Jato: "O pagamento de propinas dentro da Petrobras era algo 'endêmico' e institucionalizado".

GRAÇA FOSTER

O ex-gerente ponderou que os diretores de Óleo e Gás na época dos pagamentos, Maria das Graças Foster, depois tornada presidente da Petrobras e que pediu demissão do cargo nesta semana, e Ildo Sauer, não tinham conhecimento do pagamento da propina.

Ele acrescentou que "não tinha espaço para conversar essas coisas com Ildo e com Graça Foster", que "nunca houve conversa nesse sentido", mas ponderou que, se os diretores sabiam, "conservaram isso para si".

Segundo Barusco, quando os contratos eram fechados na área de Óleo e Gás "o percentual de propina variava normalmente entre 1% e 2%, mais próximo de 2%, sendo que desses metade era para o Partido dos Trabalhadores, representado por João Vaccari Neto", e a outra metade era para funcionários da Petrobras, incluindo o próprio Barusco.

GASODUTOS E PLATAFORMAS

O delator listou as obras em que, segundo ele, ocorreram propinas naquele setor: "os gasodutos Gastau, Urucu-Manaus, Piers de GNL [gás natural], Gasduc, Gascac, dentre outros".

Na área de Exploração e Produção, disse Barusco, "o percentual de propina variava normalmente entre 1% e 2%, mais próximo de 1%, sendo que metade desses era para o Partido dos Trabalhadores, representado por João Vaccari Neto", e a outra metade ia para a "Casa".

Segundo ele, as obras que implicavam pagamento de propina eram as plataformas de petróleo "P51, P52, P53, P55, P56, P57, P58, P61, P63, bem como a construção de oito cascos [...] dos navios do pré-sal".

Também indagado pela Polícia Federal sobre o papel do então diretor da área na época da propina, Guilherme Estrela, Barusco afirmou que ele não sabia dos pagamentos e da divisão pois "nunca viu ele participando de nada, falando de nada, era muito reservado e, se sabia de algo, desconfiava, guardou para si, pois nunca insinuou nada".

O depoimento foi prestado em novembro último e veio à tona nesta quinta-feira (5). Até o momento não se tem notícia de que existam inquéritos na Polícia Federal específicos sobre as duas novas diretorias.

Barusco contou que ele próprio fazia os pagamentos ao ex-diretor Renato Duque, "em reais, em espécie, no Brasil, que totalizaram aproximadamente" entre R$ 10 milhões e R$ 12 milhões. O dinheiro era entregue "no próprio gabinete utilizado por Renato Duque na Diretoria de Serviços, na sede da Petrobras".

A propina, segundo o delator, também era paga para ele e Duque em diversas contas mantidas em bancos suíços, abertas em nome de empresas de fechada denominadas Drenos, Rhea Comercial, Pexo Coportation, Canyon View Assets, Daydream, Backspin e Doletech, dentre outras.

PT

O delator ainda disse estimar que o PT tenha recebido entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões entre 2003 e 2013 de propina retirada dos 90 maiores contratos da Petrobras, como o da refinaria Abreu e Lima, em construção em Pernambuco.

Segundo ele, o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, teve "participação" no recebimento desse suborno. Vaccari Neto, de acordo com ele, ficou, até março de 2013, com US$ 4,5 milhões.

Segundo Barusco, Vaccari participou pessoalmente de um acerto fechado entre funcionários da Petrobras e estaleiros nacionais e internacionais relativos a 21 contratos para construção de navios equipados com sondas, contratações que envolveram ao todo cerca de US$ 22 bilhões.

"Essa combinação envolveu o tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, o declarante [Barusco] e os agentes de cada um dos estaleiros, que deveria ser distribuído o percentual de 1%, posteriormente para 0,9%", declarou Barusco.

O PT ainda não se pronunciou oficialmente sobre as declarações de Barusco. Em notas anteriores, o partido sempre afirmou que só recebeu colaborações legais. Vaccari, que foi levado pela PF para prestar depoimento nesta quinta, já negou, por diversas vezes, qualquer participação nas irregularidades da Petrobras.

ODEBRECHT

Barusco ainda afirmou que recebeu cerca de US$ 1 milhão de propina da Odebrecht por meio de contas no Panamá.

Até o momento, a Odebrecht não teve nenhum executivo preso. O ex-diretor Paulo Roberto Costa já havia dito ter recebido US$ 23 milhões de propina da empresa. A Odebrecht também tem sido citada como uma das participantes do cartel de empreiteiras que atuava na Petrobras.

Barusco afirmou que a Odebrecht transferiu US$ 916.697,00 entre maio a setembro de 2009 para uma conta no Panamá de propriedade da offshore Constructora Internacional del Sur SA e que, de lá, o dinheiro foi transferido para uma conta do próprio Barusco, também no Panamá.

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