Crise real e golpismo

iG Minas Gerais |

Sim, o governo Dilma Rousseff (PT) enfrenta uma grave crise econômica, administrativa e também de legitimidade política. Os sucessivos índices negativos do mercado, o escândalo de corrupção da Petrobras e a derrota sofrida na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados são fatores objetivos e reflexos, em parte, de uma série de erros cometidos pelo Planalto nos últimos quatro anos. O temperamento explosivo e um tanto quanto voluntarista de Dilma, aliado à continuidade, por parte deste governo, do vício político estabelecido no Brasil de se governar por meio de acordos escusos – leia-se distribuição de cargos e de verbas em troca de apoio partidário – responde por uma parcela significativa do atual cenário. Por esse quadro, o PT e a presidente têm de ser cobrados sistematicamente e interpelados dentro e fora da política institucional. Mas, para além desses fatores reais e objetivos, há também a formação de uma marcha de revanchismo, golpismo mesmo, incitado pela oposição com o respaldo crescente de segmentos da sociedade – incluindo aí parte do Judiciário, do empresariado, da mídia, de movimentos sociais e de parcela da população levada por essa maré crescente de “indignação”. Mesmo antes da eleição, esse clima de inviabilidade política, de desesperança generalizada, já vinha sendo semeado e, com a vitória de Dilma e seus tropeços reais, parece ter encontrado agora um ambiente artificialmente espontâneo para proliferar. Há uma diferença enorme entre se opor a um governo e querer derrotá-lo a qualquer custo. É como se, reconhecendo a falta de uma alternativa política para substituir o decepcionante governo do PT, alguns opositores estivessem apelando para uma retirada forçada do governo Dilma: um golpe de Estado, de forma eufemística, chamado de “impeachment”. Os argumentos jurídicos e constitucionais usados até agora para reivindicar e/ou embasar esse eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff – improbidade administrativa por imprudência, negligência, imperícia e omissão – são um tanto quanto genéricos e serviriam para pedir a cabeça de 99,9% de todos os chefes de Executivo do Brasil em níveis federal, estadual e municipal. Esse parecer, levado a ferro e fogo como quer a oposição, também seria perfeitamente aplicável para as gestões dos ex-presidentes Sarney, FHC e Lula. As investigações dos atuais casos de corrupção ou outros fatos futuros poderão até provar realmente a participação efetiva da presidente e seu primeiro escalão em um esquema para lesar o Estado. Mas ainda não há fatores objetivos para incriminar Dilma e pedir sua saída, por mais pífio que seja o seu governo.

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