Longa tem roteiro fraco, mas direção e atuações afinadas

Fazer o público ter empatia por essa mulher, sem transformá-la em uma vítima ou uma heroína, é a verdadeira missão impossível do longa

iG Minas Gerais |

Protagonista deve superar obstáculos até a compaixão dos colegas
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Protagonista deve superar obstáculos até a compaixão dos colegas

Todos os filmes dos irmãos Dardenne são sobre personagens comuns tomando uma decisão moral corriqueira, mas que vai ter repercussões profundas sobre ele e as pessoas ao seu redor. “Dois Dias, Uma Noite”, que estreia hoje, leva essa premissa à última potência.

No filme, todas as cenas trazem um personagem fazendo uma difícil escolha moral: abrir ou não mão do seu bônus para que a colega Sandra (Marion Cotillard) não perca o emprego. O filme é um mero encadeamento desses encontros, que ocorrem no período do título. Mas a forma como os dois diretores tornam isso cinematográfico, construindo um suspense que coloca o espectador no lugar daqueles personagens, perguntando-se o que faria naquela situação, e sem saber como vai terminar, é um atestado do talento dos dois belgas.

Todas as cenas de Sandra com seus colegas são filmadas em um plano único, com a câmera permanecendo entre os dois, sem colocar o público do lado de nenhum deles. Além disso, há sempre um obstáculo – uma porta, caixas, uma moita, uma grade, ou os personagens são enquadrados contra fundos diferentes – ressaltando o impasse entre a protagonista e seus interlocutores.

E a direção pode ser impecável, mas o destaque é mesmo Cottilard. A atriz encara o desafio de viver uma personagem que se recusa a ser protagonista da história. Superando uma depressão e vivendo à base de remédios, Sandra é frágil, vulnerável – fraca. Ela chora e quer desistir de sua tarefa o tempo todo, e só não o faz devido ao apoio do marido, Manu (Fabrizio Rangione).

Fazer o público ter empatia por essa mulher, sem transformá-la em uma vítima ou uma heroína, é a verdadeira missão impossível do longa. E a atriz francesa abraço o estilo dos Dardennes, fazendo isso sem usar truques melodramáticos.

A ironia é que, se ela não apela para o melodrama, o roteiro dos belgas cai no erro. Se “Dois Dias, Uma Noite” mantém a qualidade da encenação dos trabalhos anteriores dos irmãos, ele é provavelmente o roteiro mais fraco da carreira dos dois. Há uma reviravolta no final do segundo ato que parece forçada – algo inédito na filmografia dos autores – e o fim do longa não tem a mesma ressonância de um “O Filho” ou mesmo de “O Garoto de Bicicleta”.

O resultado pode ser um trabalho menor na filmografia dos Dardennes. Mas um trabalho menor dos dois é melhor que 80% do que você vai ver no cinema em 2015. (DO)

Outras estreias

Mais uma semana com muitas novidades chegando nas salas. Da safra do Oscar, há ainda “Selma – Uma Luta pela Igualdade”, sobre o líder Martin Luther King, indicado a melhor filme.

A história também marca presença em “Corações de Ferro”, sobre um pelotão na Segunda Guerra.

Para quem quer escapismo, “Bob Esponja: Um Herói Fora D’Água” traz o segundo longa do ícone animado às telas. E os irmãos Wachowski tentam fazer as pazes com o sucesso em “O Destino de Júpiter”.

Por fim, o cine 104 traz a história de dois artistas: a ficção “O Senhor do Labirinto”, sobre Arthur Bispo do Rosário; e o documentário “Cuba Libre”, sobre a atriz transexual Phedra de Córdoba.

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