Em nossa casa acontecia de tudo

iG Minas Gerais |

Hélvio
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À noite, em minha antiga casa, apareciam gambás, gatos, besouros, sapos, mariposas... Os gatos eram um inferno. Descobertos pelos cães, subiam nos troncos da mangueira atrás do meu quarto e lá ficavam o resto da noite. Claro, os cachorros também; latindo enlouquecidamente, não nos deixando dormir. Os gambás eram outro problema. De vez em quando, aparecia um morto na varanda. Para a nossa tristeza, nunca conseguimos salvá-los dos ataques de nossos cães. Por causa disso, chegamos a criar meia dúzia de gambazinhos recém-nascidos num caixote. Órfãos, dificilmente sobreviveriam sozinhos. Gostoso era na época das chuvas, em que a saparia passava a noite cantando. Lembro-me de um fim de tarde em que fui tomar banho. Fazia frio e, para não molhar a cabeça, coloquei uma touca plástica. Grande foi meu susto ao perceber que a touca pulava. Tirei-a rapidamente e, de dentro dela, vi sair uma gélida e saltitante perereca. Acabei lavando os cabelos. Os grilos e as cigarras também faziam nossas noites mais felizes. Era gostoso dormir assim, escutando a natureza, nesse recanto privilegiado que era a nossa antiga casa na Pampulha. Imaginem que, durante todos esses anos, naquele imenso espaço praticamente desprotegido, nunca entrou ninguém mal-intencionado. Doidos, sim, vários! Mas ladrão, nunca! E nem chave direito as portas tinham. Quando jovens, nossos amigos costumavam ir a nossa casa para dormir ou ver televisão à noite. Normalmente, após alguma festa na Pampulha, com preguiça de voltarem à cidade, ficavam por lá mesmo. Sabiam que encontrariam a casa aberta. Assim como sabiam onde encontrar as roupas de cama, os colchonetes, a sala onde normalmente dormiam, o caminho da geladeira, da cozinha, dos banheiros... De manhã, era sempre a mesma coisa. Os pais ligavam preocupadíssimos para minha mãe, perguntando se os filhos tinham dormido em nossa casa. Na maioria das vezes, nem sequer ela sabia. Corria para verificar e voltava ao telefone para tranquilizar as aflitíssimas mães. Certa vez, aconteceu um fato do qual rimos muito. Fui dormir na casa de uma amiga, e meus irmãos haviam saído. Em casa, apenas meu pai e minha mãe. Lá pelas tantas da noite, acordaram com um barulho na maçaneta do quarto. Estranhando aquilo, perguntaram: “Cristiano?” E nada. “Virgílio?” Nada. “Paulo?” Silêncio. Meu pai deu um pulo da cama e pegou o revólver. Minha mãe, apavorada, começou a falar alto para mostrar que havia gente em casa. Abriram a porta e foram saindo de mansinho. Silêncio total. Continuaram descendo e, de supetão, abriram a porta da sala. Não sei quem levou o maior susto: meu pai, ao se deparar com um bando de jovens esparramados na sala da TV, ou meus amigos, ao verem diante deles um senhor de pijama azul de bolinhas com um 38 na mão. O mistério foi logo desfeito. O amigo do meu amigo que nunca tinha ido a nossa casa errou o caminho do banheiro e foi parar no quarto de meus pais. Estavam em uma festa na Pampulha e, como na TV passaria a corrida de Fórmula 1 no Japão, à 1h da manhã, não tiveram dúvidas: “Vamos pra casa da Laurinha!”. Foram poucas as vezes em que o revólver do meu pai foi tirado de debaixo do colchão. De vez em quando, na madrugada, ao escutar algum barulho estranho e a cachorrada alvoroçada, ele ia lá fora conferir, normalmente sem a arma. E a gente atrás, achando aquilo uma farra. Menino é assim, completamente sem noção. Houve uma época em que, no alojamento de baixo, dormiram, durante alguns dias, vários peões de obra que ali trabalhavam. Como ficaram por pouco tempo, nunca tivemos problemas, até o dia em que um deles brigou com o companheiro. Briga feia, de socos, tapas e palavrões escabrosos. Chegou a turma do “deixa disso” e desfez a baderna. Anoitecendo, não se dando por satisfeito, um deles pegou um revólver e partiu para cima do outro. Minha mãe, tomando conhecimento do fato, foi se meter na confusão. Desceu correndo feito uma louca, com uma coragem que não sabia de onde viera, e, com muita conversa, conseguiu tirar a arma das mãos do sujeito. No final, o homem lhe agradeceu, pois poderia ter cometido uma loucura. Iria preso, com família para criar e aquelas histórias que já conhecemos. Depois disso, minha mãe caiu na cama. Passou o dia sem ter forças para nada. Enfim, lá em casa era assim: acontecia de tudo! Fatos que deixaram marcas registradas na memória e na alma, influenciando o nosso jeito de enxergar as coisas.

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