Sobre o criador e as criaturas

“Nelson sem Pecado” e “Senhora dos Afogados” levam aos palcos vida e obra do grande dramaturgo brasileiro

iG Minas Gerais | daniel toledo |

Ficção. Conflitos familiares servem como estopim ao mais recente espetáculo da Cia. da Farsa </MC><MC>
lucas serpa/divulgação
Ficção. Conflitos familiares servem como estopim ao mais recente espetáculo da Cia. da Farsa

Quem acompanhar a programação da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança neste fim de semana terá oportunidade de testemunhar distintas perspectivas sobre a vida e a obra um dos mais importantes criadores do teatro brasileiro: o dramaturgo Nelson Rodrigues.

Enquanto a Cia. da Farsa faz apresentação única da peça “Senhora dos Afogados”, o veterano diretor e dramaturgo Elvécio Guimarães oferece ao público da cidade uma curta temporada do espetáculo “Nelson sem Pecado” – uma tradução teatral de breve convivência entre ele e o escritor, ainda no início da década de 1950.

“Naquela época eu tinha apenas 17 anos, e era foca do jornal onde ele trabalhava, lá no Rio de Janeiro. Enquanto muitos o tratavam como ‘anjo pornográfico’ ou ‘destruidor de lares’, o que eu via ali era um cara muito delicado, simpático e de pouca fala, que sempre me olhou de um modo muito respeitoso, muito agradável”, relembra o diretor, sobre o contexto que inspiraram a peça.

Em cena, conta ele, o que se tem é a uma reprodução daquela atmosfera de jornal, com personagens caracterizados ao rigor daquela década, mas inseridos em um espaço limpo. “A esse aspecto da convivência na redação do jornal, combino algumas frases famosas dele, assim como dramatizações de crônicas escritas pelo Nelson ao longo de sua carreira como jornalista”, completa.

Em relação às crônicas de Nelson, certamente menos conhecidas que as peças do autor, Elvécio mostra grande admiração. “Ainda mais do que as peças, as crônicas dele sempre trazem personagens complexos, de muitas dimensões, o que acaba nos causando uma impressão de intimidade muito forte em relação àquelas pessoas”, observa.

Semelhante admiração ao escritor é demonstrada pelo ator Alexandre Toledo, integrante da Cia. da Farsa e do elenco de “Senhora dos Afogados”. “Acredito, de fato, que todo ator brasileiro deveria trabalhar em pelo menos um texto dele, e essa foi minha primeira experiência”, destaca.

Escrita em 1947 e conduzida pela trajetória de Moema, uma mulher que trava com as próprias irmãs uma grande disputa pelo amor do pai, a peça se desdobra, na visão de Toledo, em reflexões bastante profundas sobre o que se chama de natureza humana.

“O que está em debate, ali em cena, é a própria alma humana, com toda a sua grandeza e toda a sua fraqueza. São disputas entre filhos pelo amor dos pais, rivalidades entre pai e mãe, assim como entre pais e filhos. Aspectos que vêm dos nossos berços, mas que o Nelson potencializa em suas narrativas”, comenta o ator.

Com direção de João Valadares, a montagem da Cia. da Farsa surpreende ao embalar essa história com canções da banda inglesa Radiohead, fortalecendo certa fantasmagoria em torno dos personagens. “É um espetáculo que nos apresenta uma verdade muito nua e crua. E por mais que as situações que vemos em cena tenham algo de absurdo, é quase impossível não se identificar com alguma coisa ali dentro”, finaliza.

Programe-se

“Nelson sem Pecado”. De amanhã a sábado, às 21h; domingo, às 19h. Teatro da Biblioteca Pública (Praça da Liberdade, 21, Funcionários). R$ 12.

“Senhora dos Afogados”. Somente amanhã, às 21h. Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro). R$ 12.

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