Você tem sede de quê?

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Eu fico aqui com meus botões pensando no tanto que se falou das manifestações de junho de 2013, que não eram pelos 20 centavos, mas por algo maior e tal. Eu, sem entender direito que algo maior era esse que reunia nas ruas pessoas com ideologias tão irreconciliáveis, duvidei. Mas, vá lá, talvez o problema fosse eu, descrente de que aquilo pudesse ser o começo de um novo tempo, inaugural de uma consciência política e uma maior participação popular nas coisas do país. E eis que 2015 chega e com ele a certeza, com números, gráficos e análises, de uma crise hídrica sem precedentes no Sudeste do país, com maior impacto em São Paulo. E, aos 35 dias deste novo ano de péssimas perspectivas, não vi nenhuma manifestação nesse sentido, nenhuma de relevância, nada que se compare aos milhares que entupiram as principais ruas e avenidas das capitais brasileiras em 2013 para pedir... Pedir o que mesmo? O que vi foram protestos, vários, em escala menor, mas com o mesmo grau de violência, contra aquilo que se combatia um ano e meio atrás: o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo. A impressão que se tem é que, se o prefeito da capital paulista recuasse de promover o aumento de R$ 3 para R$ 3,50, todos voltariam para suas casas felizes e contentes, e a paz reinaria em São Paulo. É isso mesmo? A maior cidade da América Latina vai parar por falta d’água, e os manifestantes estão preocupados com preço de ônibus? Não estou dizendo que não é importante lutar contra aumentos abusivos de tarifas, sejam elas quais forem. O que quero dizer é que me parece incompreensível investir energia em reivindicações infinitamente menores perto de algo que é vital para a sobrevivência de seres humanos; de uma questão que não tem nada de natural e escancara o cinismo e o descaso dos nossos governantes com um assunto tão sério, que são os recursos naturais; de uma coisa que revela o que uma prática agrícola predatória é capaz de fazer; de um problema que colocam na nossa conta, sem cobrar nada do agronegócio, que consome dois terços da nossa água, e da indústria, que leva outros 20%. O colapso hídrico é uma bandeira muito mais poderosa de se carregar porque nela estão embutidas questões políticas e filosóficas: investimento em pesquisa ambiental, adoção de um novo modelo de desenvolvimento, recuperação de matas ciliares que protegem os rios do assoreamento, reflorestamento de grandes áreas para manter a perenidade das nascentes, combater o desmatamento da mata Atlântica e da floresta amazônica… É uma luta constante, grande, penosa, que requer uma mudança na nossa forma de ver as coisas, de enxergar o mundo além dos nossos umbigos. Talvez isso explique o empenho em brigar pelo aumento de tarifa de ônibus, e não pela falta d’água. O racionamento está aí. Depois, virão saques, guerras, violência, um salve-se quem puder. E os 50 centavos que nos surrupiaram, meus caros, nos parecerão brincadeira de criança.

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