A lei do desejo

Consagrado no teatro, Enrique Diaz experimenta o sucesso televisivo

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Cláudio. Fundador da Cia. dos Atores, da qual se desligou em 2012, vive um empresário corrupto e infiel
Globo/Zé Paulo Cardeal
Cláudio. Fundador da Cia. dos Atores, da qual se desligou em 2012, vive um empresário corrupto e infiel

Enrique Diaz é rosto mais que conhecido nos teatros brasileiros. Encenador dos mais importantes do país, esteve por duas décadas à frente da Cia. dos Atores, com a qual fez montagens históricas como “Ensaio.Hamlet” (2004), e mantém recente carreira independente não menos brilhante, como em “Cine Monstro”, visto no FIT-BH 2014. Passagens por cinema e TV foram menos frequentes, e nunca com tamanho impacto quanto se vê agora em “Felizes para Sempre?”, minissérie em dez capítulos dirigida por Fernando Meirelles, no ar até sexta na TV Globo.

No papel de um homem poderoso e sem escrúpulos para satisfazer seus desejos, Diaz chama a atenção pelo tom cínico, de quem está acima de todas as coisas, que dá ao personagem Cláudio, marido infiel de Marília (Maria Fernanda Cândido), a quem trai com a prostituta de luxo Danny Bond (Paolla Oliveira), e empresário corrupto. Sem julgar o personagem, o ator cria um tipo memorável pela desfaçatez absoluta, mas que se arrisca a entrar em queda livre justamente por não dosar a luxúria nem a prepotência.

“O Euclydes (Marinho, roteirista) propõe uma coisa muito contemporânea de afeto e desejo na série. Claro que tem um jogo de atingir o público com essa sensualidade toda, que não sei o quanto precisa. Mas não foi um projeto que eu criei, fui convidado a fazer como ator. São naturezas diferentes”, comenta.

A projeção dada pelo primeiro grande personagem na TV aberta – ainda por cima, um sedutor –, traz uma exposição pessoal inédita ao ator e diretor. “Tem um lado vaidoso, que acha engraçada a situação de sucesso: você sai na rua e todos estão falando disso. Essa visibilidade acaba sendo divertida porque gosto de experimentar as coisas. Mas incomoda também, porque as pessoas vão se apegando à sensualidade de maneira meio infantil”, comenta.

Diaz se refere à reação de parte dos espectadores que “só consegue falar desse aspecto erótico (do personagem), de mulheres lindas, e não consegue ver tudo o que está em torno daquilo”. Assim, podem passar incólumes, por exemplo, as relações corruptas entre empreiteiras e governos expostas no texto. Embora o petróleo chegue a ser citado em diálogos, para o ator, o retrato é muito mais atemporal do que vinculado ao momento presente do país. “Aquilo é tão identificável na história do Brasil inteira, que é um modus operandi”, observa.

Não só à esfera pública: também à vida privada a história impõe questões éticas. “É uma série sobre relações, afetos e desejos. Mas só se fala do objeto do desejo, não de como o ser humano lida com o próprio desejo. Não associam o fato desse cara (Cláudio) ter muitas mulheres – porque faz o que quer – com o fato de ele corromper o ministro para ganhar edital – porque só faz o que quer”, compara, criticamente.

Para construir o personagem, Diaz assistiu a vídeos na internet sobre “pessoas muito ricas e empresários vaidosos, que falam muito bem”. “Dei uma olhada nisso. Mas o mais importante para pensar do ponto de vista dele, e não de uma avaliação exterior, é o desejo: como a gente consegue ir atrás do que quer independente do que as pessoas possam pensar ou de se aquilo moralmente não é adequado. Ele estica essa corda do desejo na direção do ‘vou ter o que quero’, não pensa como isso afeta as pessoas. O perigo desse desapego total aos valores e às consequências dos atos envolvidos no desejo são bem comuns. Isso foi a chave principal, além de ter humor”, conta.

É de se pensar que a escolha para o personagem venha de certa semelhança com o trabalho em “Cine Monstro”, peça que coloca em cena uma representação do mal. “Tem uma cara de pau, uma falta de culpa, que faz sentido (a comparação), sim”, concorda Diaz. “O personagem do ‘Cine Monstro’ é uma coisa meio além, mais um conceito do que uma pessoa, porque não existe. Ele tem uma liberdade maior ainda”.

São dois prazeres distintos: o dos projetos autorais, que cria com outras pessoas como diretor, e o de ser ator. “É uma adrenalina diferente da exposição. Mesmo no teatro tem uma exposição pessoal delicada no caso do ator. Num trabalho com essa visibilidade toda, mais ainda. Estava pensando, outro dia, como foi bom ter gravado tudo antes da estreia, porque fiz com muita tranquilidade. Se essa polvorosa estivesse acontecendo ao mesmo tempo (das gravações), iria atrapalhar. É uma expansão muito grande do tamanho da pessoa”, diz.

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