Desventuras em série

iG Minas Gerais |

Por mais que se vasculhe e se informe, é difícil precisar todas as costuras nos gabinetes de Brasília. Ainda assim, a respeito da eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara, dá para afirmar, sem medo de errar, que o Planalto jogou mal. Se tivesse jogado bem, teria vencido a peleja, pois não há jogador mais poderoso do que o governo. Cunha é político do tipo tinhoso, contumaz, parlamentar ferrinho de dentista. Seu adesismo palaciano, como aponta o Basômetro do “Estadão”, caiu de 94%, em 2011, para 69% em 2014. O que quer dizer o seguinte: no primeiro ano da gestão Dilma, ele votava quase sempre de acordo com os interesses dela, e, no último ano da primeira gestão, nem sete de cada dez propostas preferenciais do governo tiveram a adesão dele. Detalhe: o deputado fluminense era o líder da bancada do PMDB, o maior aliado do PT. Alguém deveria ter mobilizado esforços ainda no alvorecer dos primeiros raios do desejo. Homens com as características de Cunha não costumam ser discretos, antes, expressam o que pensam, dizem o que realmente querem e, normalmente, conseguem. Michel Temer, o único com alguma capacidade de pôr ordem no balaio do grande irmão, buscou diálogo com Cunha, deve ter tentado demovê-lo da ideia. Mas será que tentou com vontade? Sendo obstinado, o deputado perseverou. O que fez o governo? Em vez de tentar seduzir Cunha, o mais opositor dentre os aliados, com chamegos políticos (entenda-se: cargo, orçamento e poder), lançou um candidato de casa para enfrentá-lo (entenda-se: partiu pro pau). O petista Chinaglia, ex-presidente da Câmara, perdeu, e no primeiro turno. Perdeu ele, e perdeu o governo. Já o Brasil ganha para o comando da “Casa de seu povo” um político polemista, defensor de temas pouco progressistas, como é do perfil dos representantes evangélicos, e que transita com muito boa desenvoltura entre o baixo clero e o subsolo do Parlamento. Cunha é obstinado, mas também obscuro. Agora, o governo quer e precisa tentar burilar essa tora de jacarandá que tem nas mãos. Crises há para todos os gostos: hídrica, energética e econômica. Sem aliados poderosos no Congresso, homens capazes de conduzir as matérias oportunas de acordo com suas diretrizes, o governo pode vir a boiar. Que boa vontade terá Cunha em acelerar a tramitação de projetos necessários para a correção de rumos e para a contenção das crises? Mas, sim, o pior está por vir. A qualquer momento, o procurador geral da República vai apresentar sua lista do purgatório, as autoridades que receberam, ou de cujas campanhas se beneficiaram, do esquema da Lava Jato. Da lista de Rodrigo Janot virá o carimbo para toda uma legislatura, a que foi inaugurada anteontem. É possível que os nomes abranjam de A a Z o aspecto partidário. Será surpreendente se o PMDB de Cunha, o partido que é legião, porque são muitos, for o mais impactado na denúncia e se, proporcionalmente menos vulnerável, o PT de Dilma avançar sobre os aliados. Nesse caso, a melhor escolha para o novo presidente da Câmara necessariamente seria voltar ao “sim, senhora”.

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