Aberto o debate sobre o FIT

FMC realiza hoje, no Teatro Marília, consulta pública para ouvir as demandas de público e artistas sobre o festival

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Público. Maior integração à cidade, construção coletiva com os artistas e uma política pública continuada estão entre as solicitações.
UARLEN VALERIO / O TEMPO
Público. Maior integração à cidade, construção coletiva com os artistas e uma política pública continuada estão entre as solicitações.

Pensar o festival como uma política pública continuada, não apenas um evento de alguns dias. Esse é um dos pontos centrais ouvidos repetidamente em conversas com representantes da classe artística sobre as necessidades do FIT-BH – Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte.

Hoje, às 19h30, o Teatro Marília sedia a primeira consulta pública para debater as demandas do setor artístico e do público e abrir caminhos à edição de 2016. O ator Leonardo Lessa, do Teatro Invertido, é um dos que planeja comparecer, com a expectativa “ousada” de reinventar o formato do festival. “Tenho acompanhado as discussões, lido sobre o assunto e, pela experiência que tenho em outros festivais, esse modelo de vitrine de espetáculos já está esgotado para a realidade de BH”, opina.

Para Lessa, o fato de o FIT–BH ter orçamento garantido por lei, como uma política pública independente de partidos políticos, permite que seja pensado de modo mais propositivo. “Não pode ser tomado como evento. Talvez essa seja a maior negligência, porque fica sujeito aos humores da organização e se vê uma descontinuidade total. O festival tem que estar a serviço de uma política pública maior e precisa de estratégias mais ousadas, como coproduções e ações formativas que não sejam só um apêndice: a programação como um desdobramento das ações formativas e não o contrario. A inversão dessa lógica me parece mais coerente com uma política estruturante para cidade a longo prazo”, diz.

Gustavo Bones, ator do grupo Espanca!, sustenta semelhante ponto de vista, dizendo que cabe à curadoria pensar: “que mostra é essa?”. “Vemos em São Paulo a MITsp (Mostra Internacional de Teatro) trazer uma nova baliza para esse conceito (de festival)”, compara. “Enquanto isso, a prefeitura (de BH) caminha cada vez menos, porque ideia é sempre uma concepção eventual de cultura”.

Lessa pede ainda uma relação mais direta e aprofundada com a cidade, de modo a integrar os artistas na construção do festival e não inserir os espetáculos locais somente como produto que compõe a grade de programação. “Inclusive em termos de curadoria, o diálogo tem que ser feito na base”, diz Lessa. “A escolha dessa curadoria também é uma caixa preta, são nomes ótimos, mas não foi fruto de um debate”, observa.

Também para o ator e diretor Alexandre Sena, o FIT-BH deveria manter ações residuais durante os períodos em que não é realizado. Ele critica, porém, a concentração da política de artes cênicas da FMC no festival. “Não se pode fazer do festival a única plataforma para a cultura, tem que se pensar isso cotidianamente. Acho que o FIT tem que acontecer mais em outros espaços da cidade, ter esse resíduo em outras épocas, mas não pode ser o único responsável pela produção cultural da cidade”, diz.

Quanto à descentralização – outro aspecto de destaque –, Sena frisa a importância de se ocupar lugares esquecidos. “A região Nordeste é muito desprovida de equipamentos culturais”, exemplifica. “Fico esperando que o festival ofereça mais eventos públicos e gratuitos em praças”, sugere Clovis Domingos, do Coletivo Obscena.

Além disso, Sena lembra que as ações com escolas públicas e técnicas precisariam continuar fora do período de apresentações, e aponta a “decadência” do ponto de encontro, que deixou de ser um local de encontro e troca entre os artistas – uma das funções de um festival a ser lembrada em uma consulta pública.

Gustavo Bones, contudo, descrê da efetividade desse tipo de encontro. “Acho que vai ser difícil estabelecer um diálogo de verdade daqui para a frente”, diz. “Estão sempre nos convidando para reuniões esvaziadas de pessoas, de pauta e de clareza. Os temas que vêm são sempre os mesmos, e não se concretizam”. Para evitar essa diluição do debate, caberia à prefeitura tomar a frente e apresentar propostas a serem discutidas e aperfeiçoadas pela classe e pela população. “Acho muito demagógico fazer uma reunião que não vai a lugar nenhum”, diz Bones.

Encontro

A consulta pública sobre o FIT-BH 2016 acontece no Teatro Marília (av. Prof. Alfredo Balena, 586), às 19h30, aberta a produtores, grupos, artistas e população em geral. Estarão presentes os novos curadores: Diego Bagagal, Eduardo Moreira e Walmir José.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave