Crítica, humor e repetições

Milton Machado participa de bate-papo com a pesquisadora Renata Marquez no dia da abertura da exposição

iG Minas Gerais | Daniel Toledo |

Concentração. “21 Formas de Amnésia” dá título à instalação que tem origem na fragmentação de um desenho em pequenos quadrados
WILTON MONTENEGRO/DIVULGAÇÃO
Concentração. “21 Formas de Amnésia” dá título à instalação que tem origem na fragmentação de um desenho em pequenos quadrados

Enquanto a obra escultura “Módulo de Destruição Atravessado por Nômade” deve render muitas selfies no pátio interno do CCBB, atitude bem diferente é convocada por outro trabalho de destaque dentro da mostra “Cabeça”, de Milton Machado, que abre amanhã em Belo Horizonte. “21 Formas de Amnésia” (1989) foi o título escolhido pelo artista para uma instalação que tem origem na fragmentação de um desenho em pequenos quadrados de 1 cm x 1 cm, e requer do visitante bastante concentração sobre as pequenas imagens e os breves textos que acompanham cada uma delas.

Segundo texto manuscrito incorporado à instalação, o trabalho teve início com 1.707 fragmentos, posteriormente organizados pelo artista em conjuntos que remetem tanto à história e ao contexto da arte quanto a experiências pessoais vividas durante a criação do trabalho. “Não há registro do desenho original além destes”, avisa o mesmo texto.

Organizadas em pequenas caixas de acrílico, delicadamente dispostas como se fossem paredes de uma sala de exposição, algumas composições criadas pelo artista exploram tanto aspectos cromáticos de cada fragmento, sugerindo imagens inusitadas (e surpreendentemente visíveis), como o imperador Napoleão Bonaparte. Outras, por sua vez, são construídas como maquetes de pequenas exposições de arte, tratando os fragmentos como quadros pendurados nas paredes de uma exposição convencional ou ainda amontoados, em clara referência a linguagens mais contemporâneas.

Se o universo da arte surge como tema a ser explorado de forma lúdica em “21 Formas de Amnésia”, outras criações se arriscam em críticas mais contundentes ao comportamento humano. É esse o caso da escultura “Dois Burros Girando em Torno de Dois Postes aos Quais Estão Amarrados Perseguindo Pássaros que Vêm das Mãos de Denis Diderot”, também de 1989.

Composta por dois livros de cujas páginas saem arcos de madeira, formando um caminho espiral, a obra faz referência à recorrente falta de sentido das ações humanas. “Se você amarra um burro num poste com uma corda, ele segue andando em círculos, vai criando uma espiral até bater no poste”, resume Milton Machado, antes de completar com uma bem-humorada provocação. “Mas quem são esses burros? Nós mesmos, sempre. Você é um dos burros, eu sou o outro, e nós estamos amarrados, girando em torno desses postes, sem conseguirmos nos livrar deles”, sentencia.

Humor semelhante, aliás, é encontrado em vários desenhos que sugerem destinos um tanto desastrados – quando não catastróficos – às cidades que construímos e ao próprio ser humano. Chama atenção uma pequena ilustração em que se vê um homem completamente perfurado por facas. O titulo da obra, “Assistente de um Mau Lançador de Facas”, dá algumas pistas sobre o seu sentido.

“Esse trabalho está relacionado a uma performance que chamamos de ‘Homem Muito Abrangente’, na qual um atirador muito competente lança cem facas em direção a uma figura que desenhamos na parede. Só que, ali, esse atirador interpreta o papel de um lançador muito ruim e as cem facas acertam a figura”, descreve.

O desfecho irônico da história, contudo, não tarda a chegar, revelando algo da visão do artista sobre as desmedidas ambições do homem em sua relação com o mundo. “Como aquele era o homem muito abrangente, ele ocupava o mundo todo, menos o espaço do próprio corpo. Por isso, ele poderia se sair muito bem como assistente de um mau atirador de facas”, diz.

Amanhã, às 19h, acontece um bate-papo com Milton Machado e a pesquisadora Renata Marquez. Nesse mesmo horário, será lançado o livro-catálogo “Cabeça”, com imagens e textos críticos sobre os principais trabalhos do artista.

 

Agenda O quê. Exposição “Cabeça”, de Milton Machado

Quando. De amanhã a 30 de março (de quarta a segunda, das 9h às 21h)

Onde. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB (praça da Liberdade, 450, Funcionários)

Quanto. Entrada gratuita

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