Panorama radical da cena

Em sua segunda edição, MITsp chama atenção a problemáticas geopolíticas e deslizamentos entre teatro e cinema

iG Minas Gerais | Daniel Toledo |

“Woyzeck”. Espetáculo ucraniano confina a humanidade entre caixas de vidro e espelhos
vladimir lupovskoy/divulgação
“Woyzeck”. Espetáculo ucraniano confina a humanidade entre caixas de vidro e espelhos

Em março de 2014, São Paulo testemunhou o renascimento de uma mostra internacional de teatro que já há algum tempo fazia falta à cidade e ao país. Evidência disso foi o amplo reconhecimento alcançado pelo evento, rapidamente alçado por críticos, pesquisadores e mais de 14 mil espectadores – em apenas nove dias – como um dos mais relevantes do país.

Idealizada pelo pesquisador e encenador Antônio Araújo (diretor artístico do Teatro da Vertigem) e o produtor e gestor cultural Guilherme Marques (diretor do CIT-Ecum), a MITsp chega à sua segunda edição com dez espetáculos vindos de Rússia, Alemanha, Inglaterra, Ucrânia, Holanda, Itália, Israel e Brasil. A programação tem início em 6 de março, mas os ingressos começam a ser vendidos na próxima quinta (5), com preço único de R$ 20 (inteira).

“Desde as nossas primeiras conversas, já pensávamos em um festival que fugisse daquele padrão que reúne cem ou 200 espetáculos. Estamos mais interessados em um evento concentrado, com menos atrações, em que o público possa acompanhar todos os trabalhos. Essa opção ainda nos permite trabalhar somente com espetáculos bastante arrojados, de ponta, criados a partir de pesquisas consistentes dentro do campo das artes cênicas”, contextualiza Antônio Araújo, diretor artístico do evento.

“Buscamos, além disso, privilegiar artistas e espetáculos que, mesmo sendo muito relevantes dentro da cena atual, ainda não foram absorvidos pelo circuito de festivais e, até mesmo por isso, continuam inéditos no Brasil. Tivemos, no ano passado, ótimos exemplos de grupos totalmente desconhecidos por aqui e que conseguiram uma repercussão muito positiva dentro do festival”, completa Guilherme Marques, destacando um dos aspectos de singularidade da mostra dentro do contexto nacional.

contrastes. Mesmo que premissas bastante claras norteiem a curadoria da mostra, o que se tem como resultado é uma seleção bastante diversificada. “Há espaço para dramaturgia contemporânea e textos clássicos, assim como para trabalhos criados por grandes encenadores e por grupos de teatro. Há espetáculos em que o foco está no ator e outros que privilegiam a encenação, assim como criações que dialogam com outras áreas, como a performance, a dança e, especialmente nessa edição, o cinema”, exemplifica Antônio Araújo, sobre a programação deste ano.

Reside nesse diálogo entre teatro e cinema, aliás, um dos principais focos da programação. Superando certo deslumbramento tecnológico por vezes visto no teatro contemporâneo, a seleção de Araújo e Marques chama atenção para trabalhos que encontram no diálogo com o cinema e o audiovisual recursos que potencializam – ou mesmo fundam – suas propostas de encenação.

“Em ‘Arquivo’, por exemplo, um diretor que mora em Tel Aviv entrega câmeras de vídeo a palestinos e pede que eles registrem as tomadas de território comandadas pelo Estado israelense. Essas imagens são levadas ao palco, e cabe ao diretor – e ator – do espetáculo, que é judeu, habitar aquelas imagens”, descreve Araújo, em referência ao trabalho de Arkadi Zaides.

Ainda que de modo mais sutil, outra fronteira que vem enfrentando turbulências nos últimos tempos também se faz presente na programação do festival, dessa vez por meio dos espetáculos russos “A Gaivota” e “Opus nº7” e do ucraniano “Woyzeck”. “Ao trazermos esses espetáculos, é como se colocássemos os dois países no mesmo território”, compara.

E se a montagem de Yury Butusov para “A Gaivota” se apresenta como uma complexa reflexão sobre a própria arte teatral, com os atores alternando-se em diferentes configurações das mesmas cenas, os outros espetáculos da mesma fronteira mostram coragem ao tocar em feridas abertas de seus países de origem.

“Enquanto o ‘Opus nº7’ se volta à questão da perseguição dos judeus pelo Stalin, ainda que a partir de uma maneira extremamente plástica e visual, o ‘Woitzeg’ mostra uma relação delicada e difícil do diretor com seu país de origem, a Ucrânia. O que se tem, nesse sentido, são pontos de vista bastante críticos, que não têm nada de ‘chapa branca’”, observa o pesquisador, atribuindo aos espetáculos característica que, não por acaso, também se encaixa com justeza na curadoria do festival.

Programe-se

A 2ª MITsp acontece entre 6 e 15 de março.

A venda de ingressos começar na próxima quinta (5/2).

Saiba mais em mitsp.org

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