Eclesiástico

iG Minas Gerais |

Imaginei, quando jovem, que o bem sempre prevaleceria. Que a justiça existe soberana. Todos os filmes do século passado que mostravam o mocinho inegavelmente vencedor, as leituras de romances e especialmente a doutrinação recebida na escola católica criaram em mim a ideia de que a virtude era a vencedora do começo ao fim, assim na terra como no céu. Já depois de algum tempo, apesar do ímpeto indomável de justiça, passei a enxergar que, entre a terra e o céu, a distância é abismal. Entendi que o bem se manifesta em tempos e épocas diferentes do mal, de um ponto para outro haverá coincidência, mas só depois de o sangue dos mártires ensopar o chão da arena. Para o sábio, a realidade mais importante é espiritual, a única que lhe interessa realmente, e entende que no mundo material tudo é efêmero. A justiça que interessa ao sábio acontece apenas no céu, não se processa em breve espaço de tempo, muitas vezes é póstuma, mas inexorável. Pode até migrar de encarnação. Para quem não acredita nesse outro lado imaterial, vale a pena arriscar tudo na matéria, no “carpe diem”, e fartar-se na locupletação. Depois de 63 anos e muitas cicatrizes, em relâmpagos, enxergo que o mal e os erros podem prevalecer, sim, até por longos períodos antes de virar cinzas. Meu mestre me fez ler no Eclesiástico, 21: “Quem constrói a própria casa com dinheiro de outros ajunta pedras para sua própria sepultura”. Explicou-me que a riqueza sem suor e mérito, mais ainda aquela que vem do engano e, pior, aquela que vem do sacrifício dos pobres acabam se desfazendo de repente sem deixar proveito algum. Ainda no mesmo capítulo (21), me mostrou que “a reunião de injustos é um monte de estopa, que acabará em chamas de uma vez”. Juntar-se aos iníquos levará à desgraça. Veja-se hoje a vez do petrolão, um monte de estopa virando cinza. E outras cinzas ainda haverá de ser o produto final dos iníquos. Fui educado estoicamente, para viver uma existência heroica, provavelmente como forma de resgatar pecados de outras existências. Pago o preço. Aprendi que a cada passo na escalada do alto da montanha, com o ar mais rarefeito, os passos devem-se fazer cuidadosos, os detalhes podem determinar a continuação da subida ou uma queda irremediável. Aprendi também que o bem pode ser pior que o mal, quando o mal pelo sofrimento permite evoluir mais rapidamente, e disso surgiram terríveis questionamentos. Em Schopenhauer me consolei, em Rudolf Steiner me entusiasmei, em H.P. Blavatsky aprendi a doutrina mais celestialmente reveladora, em outros espelhei-me e revivi ou antecipei muitas experiências. O martírio é o fim que coube a Giordano Bruno nas fogueiras da Inquisição, mostrando como ao brilhantismo de um gênio, adepto do amor incondicional, se aplicou o pior dos castigos. Galileu Galilei se desmentiu para não arder entre chamas, e que dizer do Cristo na cruz, trocado por Barrabás, o pior dos delinquentes. O martírio de um iluminou a humanidade, e a libertação do outro caiu como uma infâmia eterna sobre quem se atreveu. Quem usou “crueldade e arrogância terá sua riqueza destruída”, ainda no capítulo 21. A humanidade não pode ser levada a sério em seu fundamento, é mais estulta do que sábia. Por linhas tortas avança a história. E o sábio não lamenta, mas agradece os insultos recitando o mantra: “Meu Deus, obrigado pelo sofrimento e pela dor em que encontrei a oportunidade de aprender”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave