Técnica permite transplantar coração que já parou de bater

Dispositivo dos EUA pretende aumentar possibilidades de transplante em 30%

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Ansiedade. 
A espera pela chegada do órgão foi o que mais marcou a dona de casa Alcilete, que recebeu um coração doado em 2003
LEO FONTES / O TEMPO
Ansiedade. A espera pela chegada do órgão foi o que mais marcou a dona de casa Alcilete, que recebeu um coração doado em 2003

O transplante de coração é considerado um dos mais difíceis de serem realizados, pois as células cardíacas não resistem à falta de oxigenação. Por isso, os doadores de coração precisam ser pessoas que tiveram mortes cerebrais, ou seja, cujo coração nunca ficou sem funcionar. Mas uma nova técnica de transplante pode mudar drasticamente esse cenário – para melhor.  

“Pelos últimos 40 anos, temos retirado os corações para transplante, colocado em caixas térmicas com gelo e levado para os centros de transplante. O (novo) conceito do chamado ‘coração na caixa’, ou sistema de conservação de órgãos, é uma plataforma que permite que os corações para doação não sejam preservados em uma caixa de gelo, mas sim em um estado fisiológico quase normal”, explica o cirurgião Abbas Ardehali, diretor dos programas de transplante de coração e fígado da Universidade da Califórnia, nos EUA, e principal pesquisador da técnica.

Na Austrália, país que está testando o procedimento, dois pacientes já receberam doações de corações que haviam parado de bater fazia 20 minutos. Com um mecanismo de bombeamento artificial do sangue, a máquina mantém o coração morno, faz com que ele volte a ter batimentos e circular o sangue, preservando-o por mais tempo até ser transplantado.

Uma solução como o coração da caixa pode diminuir a angústia das dezenas de pessoas que estão na fila por um transplante por todo o Brasil. Até setembro de 2014, segundo o último relatório da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), havia 33 pessoas na fila para receber um coração.

A dona de casa Alcilete de Araújo Veiga, 59, recebeu um transplante em 2003. Depois de contrair uma pneumonia, ela veio a ter miocardite virótica. Em estado terminal, entrou para a fila de transplantes do coração.

“A parte pior é a ansiedade da espera. A gente fica sem saber quando o coração vai chegar, e é algo que nem sabemos como pedir a Deus, porque a nossa vida depende da morte de outra pessoa. É uma situação muito difícil”, lembra. Pela gravidade de seu caso, ela aguardou somente 57 dias e, hoje, quase 12 anos depois do transplante, leva uma vida normal.

A expectativa dos pesquisadores é que o coração na caixa aumente em 30% as possibilidades de transplante em todo o mundo.

Brasil

Melhora. Relatório do Ministério da Saúde do ano passado mostrou que os transplantes de coração aumentaram 60% nos últimos três anos. Em 2014, 236 pessoas receberam um coração doado.

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