Dialogando com a angústia

iG Minas Gerais |

Confesse-me, Angústia, quem te criou? Sua gênese híbrida, contém a alquimia do divino e do profano? Ora, não se cale enquanto se instala silenciosa e sorrateira nesse coração que aperta numa tortura que já não cabe no peito. Que dor é essa, que não sendo física, ludibria o aparato da tecnologia que a medicina racional inventa? Por que, Angústia, insiste em matar a cada minuto, meu direito de viver? Sai do crepúsculo, Angústia, e deixe que o pôr-do-sol se liberte de sua tristeza, e a “hora do Angelus” soe a Ave Maria suave e serena, ao som de capela. Liberta do meu coração sentimentos que me afligem, culpas que me perseguem, mágoas que me habitam intransigentes ao perdão que tanto busco. Me devolva o ar que não consigo respirar e que me faz desesperar ao afogar na tristeza que substitui o oxigênio que não entra no pulmão dispneico. Quem é você Angústia? Inspiração de poetas, artistas, gênios, que, masoquistas, extraem do sofrimento a essência do que é belo, transcendente, inspirador. Capazes de ver musas, em rostos comuns da multidão ou cores no branco, antes do arco-íris? Ou, como teimam cientistas e filósofos, uma sensação essencial, uma emoção tão primária que permite a auto-preservação ao ampliar o medo, a ansiedade, a insegurança, a necessidade de socializar-se? Onde mora, onde se esconde traiçoeira, ó Angústia? Na mão que esmaga sem dó o peito e o coração, na falta de ar que asfixia, como se a tristeza e a depressão tivessem quase que se transvestir em manifestações físicas, para que ajudadores entendam a dor na alma? Não me deixe nesse labirinto sombrio, como se a solidão, mesmo rodeada por tantos, fosse senha para entrar no seu jogo estranho, onde dúvidas, perguntas sem respostas, caminhos sem saídas, criassem estranhas sensações de abandono, desesperança, desmotivação existencial. Ando cansado de pesquisadores circunspectos quase arrogantes, embalados pela vaidade acadêmica, reduzindo o infinito espectro de ti, ó Angústia, a disfunções neuroquímicas, áreas cerebrais ainda tão desconectada das dimensões mentais, de consciências amplas, que cismam falar na minha cabeça, analisar o mundo que habito, mergulhar no tsunami de pensamentos, em tempestades de emoções e turbilhões de desejos. E sei que é aí que tu te encontras! Escondida, mascarada, camuflada, prestes a atacar a mente e alma humana. Enquanto fugi, sofri, chorei, me escravizei e não vivi. Mas hoje, nesse lindo dia que nasce ou se vai, te espero. Braços abertos, corpo relaxado, solto na cama. Mente aberta ao que der e vier, que assim seja. És bem-vinda, Angústia, pois nasceste em mim, tanto quanto a alegria, a paz, a raiva, o perdão, a imperfeição, o pecado. Em mim, o sol brilha, a noite cai. A chuva molha, inunda. O sol seca, faz crescer. Nada é bom ou mau, ninguém é exemplo absoluto do bem nem do mal. Como é bom ser incompleto e imperfeito. A humanidade ainda está nos seus primórdios, é angustiante nada saber. Mas é instigante, curioso, querer conhecer o muito que não sei de mim... Imagina o que não sei dos outros! P.S.: Coluna dedicada aos meus clientes de toda uma vida.

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