Táticas de sobrevivência

Francisca Caporali Professora e coordenadora artística do JA.CA

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“Isso é normal (um coletivo ficar sem dinheiro), mas aí tem que bolar estratégias para conseguir angariar fundos”
RICARDO MEHEDFF / DIVULGAÇÃO
“Isso é normal (um coletivo ficar sem dinheiro), mas aí tem que bolar estratégias para conseguir angariar fundos”

Antes de criar o JA.CA, a então mestranda em artes em Nova York Francisca Caporali não imaginava que voltaria a morar no Brasil. Mesmo depois, achou que seria possível viver entre os dois países, mas com o fortalecimento do projeto, achou melhor retornar à capital mineira. Na conversa abaixo, fala sobre o trabalho realizado e sobre as estratégias para manter a iniciativa.

O JA.CA completa cinco anos em 2015. Fale um pouco do trabalho realizado durante este tempo?

Nós enxergamos nosso trabalho como um estudo de território, no caso, o bairro Jardim Canadá. Somos um centro de produção, de residência artística para artistas nacionais e internacionais e vários outros projetos relacionados com pesquisa e produção. Há um tempo, tentamos entender também o funcionamento de outros lugares e começamos a ter projetos itinerantes, saindo das fronteiras do bairro. Ao mesmo tempo, começamos a entender que o bairro era pouco móvel e hostil: não tinha calçadas, obrigando as pessoas a andar na rua junto com carros e caminhões, além de não ter sombra. Aí tentamos melhorar o Jardim Canadá de forma a torná-lo mais acolhedor, nos moldes urbanos, é claro. Uma coisa que acho interessante é que vocês têm espaço autônomo, que de fato promove o diálogo com a sociedade. Você também pensa assim?

Temos um interesse muito grande em aumentar a qualidade de vidas das pessoas. E o engraçado é que muitas pessoas perguntam se é algum tipo de contrapartida de projeto. Mas tudo que fazemos, aí incluídas as residências, é pensando em estabelecer uma conexão com o lugar em que o trabalho está sendo realizado. Entendo que no Brasil esse papel ainda é visto como arte-educação e não como uma apropriação da arte contemporânea para a comunidade, como acontece nos Estados Unidos. Mas é esse o foco que nos propomos a seguir. Seria então o papel do JA.CA para a Belo Horizonte o de apresentar um caminho novo para a relação entre arte e sociedade?

Como atuamos com diversos públicos, não sei se teríamos apenas um papel. Eu vejo que a gente tem um papel com a comunidade artística ao fomentar e apoiar projetos experimentais. Também trabalhamos no sentido de promover a reflexão por meio de pesquisas e residências. Além disso, temos uma parceria que permite que estudantes de arquitetura atuem no projeto, assim, geramos oportunidade para que eles transbordem as fronteiras impostas pelas disciplinas. Há também nossas atuações no bairro, que vão além da parte estética. Imagino que manter um projeto como esse por todos esses anos não tenha sido fácil.

Não foi mesmo. Durante esses cinco anos, vivenciamos várias fases diferentes. No primeiro ano, tivemos uma captação grande, então o projeto tinha equipe, curadores de fora e atuações permanentes. No segundo ano, zero de captação. Aí tivemos muito aprendizado no que diz respeito à gestão de projeto, mas decidimos mantê-lo aberto e tentar meios solidários de parceria para dar continuidade ao trabalho. Nesse período, vários artistas queriam vir para cá, mas só podíamos oferecer a hospedagem e lugar para trabalhar. Depois disso, voltamos a ter captação, mas nada muito grande, e tem sido assim desde então. Gerenciar um projeto independente é muito difícil. O que fizeram ou fazem para entender melhor esse processo de gestão?

Realizamos o projeto Indie.gestão, que teve como intuito aprofundar o conhecimento sobre as estratégias que redes como JA.CA utilizam para sobreviver. Muitas vezes temos tudo contra o projeto. Esses espaços são iniciados por artistas com pouca experiência em gestão, que não sabem como é o funcionamento de um espaço, como é ter uma programação contínua etc. Então, entendemos que é proveitoso reunir todas essas experiências de sobrevivência. Assim visitamos outros espaços, como Barracão Maravilha (Rio de Janeiro), Espaço Fonte (Recife), Atelier do Porto (Belém), Grafatório (Londrina) e Elefante Cultural (Brasília). Acho que espaços como esses em BH conseguem sobreviver por pouco tempo. Você consegue imaginar por quê?

Geralmente, no primeiro ano desses coletivos todos integrantes investem dinheiro; no segundo, não. Isso é normal, mas aí tem que bolar estratégias para conseguir angariar fundos, que vão de jantares a leilões. E, atualmente, se você comparar com São Paulo realmente verá que há poucos espaços aqui. Tem o Espanca!, com um bom tempo de existência, e o Benfeitoria, que é mais recente. E tínhamos alguns lugares que já não existem mais, como o Desvio e o Hexa. Você falou em estratégias para tornar sustentável financeiramente o projeto. O que tem realizado nesse sentido?

A principal coisa que estamos tentando fazer é deixar de gastar dinheiro. Por exemplo, o nosso maior gasto sempre foi com aluguel e, por isso, resolvemos mudar. Mas tínhamos que ficar no Jardim Canadá, pois todo o nosso trabalho está ligado a esse território. Como os aluguéis lá são muito caros, tentamos negociar com a prefeitura, mas não conseguimos nada. Daí resolvemos alugar um lote, pois é muito mais barato. Mas como irão construir?

Vamos usar contêineres, estruturas metálicas desmontáveis. Tudo vai poder ser levado de lá quando tivermos que sair. E tudo isso é construído na parceria: temos o Ramiro, um argentino que tem experiência de construção com contêineres em Barcelona, alunos da Escola de Arquitetura da UFMG e todos que trabalham no JA.CA. No ano passado, vocês iniciaram uma parceria com a Fundação Clóvis Salgado (FCS). Como essa parceria contribuiu para o desenvolvimento do projeto?

Por muito tempo sofremos uma pressão de outras pessoas, questionando o por quê de o projeto ser no Jardim Canadá, e não sabíamos responder. Aí realizamos esse projeto com a FCS. Ocupar o espaço de lá foi incrível, levantou várias questões, como a tensão que existe no espaço institucional das galerias. Muitos artistas residentes, por exemplo, não entenderam a ideia do uso subversivo do espaço. Além disso, muitos preferiram não ficar lá e foram para o JA.CA. Essas situações nos ajudaram a compreender a importância de ficarmos onde estávamos. Você é também professora da Guignard e curadora da Noite Branca, de Belo Horizonte. Como esses lugares que você ocupa dialogam com seu trabalho no JA.CA?

Para mim, a Noite Branca estabelece uma ligação clara, pois ambos têm objetivos parecidos: estão interessados em arte, arquitetura e instalações, trabalham com a comunidade, além de mapeamento. Já meu trabalho na Guignad funciona de outra forma. Quando entrei lá, tinha a expectativa de que esses trabalhos fossem se misturar, mas não aconteceu. Há uma pequena interlocução quando converso com meu alunos, pois dialogo com eles da mesma forma que converso com os artistas do projeto. Isso talvez exija deles uma maturidade que ainda não têm, mas que os ajuda a se prepararem profissionalmente. Quais planos ou sonhos você tem para o JA.CA?

Eu acho que o meu sonho seria ter pessoas “vestindo a camisa”, falando como uma firma (risos). Para mim, é super emocionante quando vejo alguém fazendo um trabalho legal e assinando como integrante do JA.CA. Também gostaria de não depender de projetos de lei e que o projeto ficasse cada vez menos atrelado a mim, que se diluísse, como já está acontecendo. 

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