Uma casa para a sua solidão

Cida Falabella prepara para março um solo autobiográfico, que será apresentado em sua própria residência

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Pajé. Atriz, dramaturga e diretora da ZAP 18 vem publicando no blog A Louca Sou Eu textos que embasam o novo trabalho, “Domingo”
Fotos: Thiago Macedo/ divulgação
Pajé. Atriz, dramaturga e diretora da ZAP 18 vem publicando no blog A Louca Sou Eu textos que embasam o novo trabalho, “Domingo”

Faz quase seis anos: 12 de outubro de 2009. Cida Falabella ainda escrevia em papel. “Pensei em transformar esse diário em uma peça. Poderia se chamar ‘O Ano em que Eu Envelheci’ ou ‘Domingo’”. Tempos depois, dirigiria o filho Gustavo em “O Ano que Virei Adulto”, inspirado num livro de John Fante. Assim, “Domingo” ficou para depois, junto do desejo de lidar com questões femininas e sentir na própria pele algo que, como diretora, Cida provocava em outras pessoas: colocar suas experiências pessoais em cena. A ideia saiu do papel para o blog A Louca Sou Eu em junho passado, e já toma a forma de um solo com previsão de estreia em março, em sua própria casa, no bairro Serrano, próxima à sede da companhia ZAP 18. Apenas aos domingos. É o mesmo dia da semana da maior parte das postagens feitas em seu blog. “O ano passado foi emocionalmente muito turbulento e eu fui acelerando a escrita. Raramente não publico aos domingos”, comenta a diretora, reconhecida por um teatro de viés crítico e descentralizado, em contato direto com a comunidade onde está inserido. Lar. Nos primeiros textos de “Domingo”, a imagem da casa, sua construção e o “lado de fora” aparecem com força. O mesmo caminho deve ser percorrido pelo público do espetáculo – pouco mais de 15 pessoas por sessão. “Começo com rituais de enterrar coisas no quintal, recuperar outras. Uma relação com a terra que estou buscando de novo; sempre tive a mão ruim para plantar”, conta. “Depois, convido as pessoa a entrarem”. A cozinha é outro lugar acolhedor no espetáculo. Cida pensou primeiramente em preparar uma refeição para a pequena plateia, mas optou por um café com pão de queijo e broa, mais informal. Por causa dessa ligação estreita com as paredes do lar, ela não cogita levar o espetáculo a um teatro, mas imagina futuramente poder apresentá-lo em outras casas também. “Sempre tive um lado de ir para a rua muito forte, mas também um lado muito casa. O solo é um resgate desse lugar já de outro ponto de vista: não tenho mais filho pequeno e, no momento, nem marido nem companheiro para cuidar. A casa é um lugar quase sagrado de se encontrar com sua solidão, esse lugar que você habita num sentido mais amplo. E, do lado de fora, poder observar um pouco mais o ritmo da natureza”, comenta a atriz. “Sou a irmã mais velha, casei e tive filho nova. Estar na casa agora é uma liberdade, não uma prisão. Não é imposição, é escolha”, completa. Já nos primeiros ensaios, a atriz e dramaturga compreendeu que não caberia uma direção de teatro aos moldes tradicionais, e convidou a artista Denise Pedron para trazer sua experiência com performance. “É um espetáculo que tem esse link direto com o pessoal. Sou a persona, não o personagem”, diz. Cida já provou o gosto do trabalho no 24º Encontro Sesi de Artes Cênicas de Araxá. “Fizemos duas apresentações numa casa”, conta. Lá, ela desfez dois mitos que havia imposto ao espetáculo: que seria só para uma plateia feminina, preferencialmente acima dos 40 anos. “Os homens foram generosos, falaram da dificuldade de entender suas mulheres. Como vamos excluí-los se a gente tem sempre essa dificuldade de construir uma coisa juntos?”, indaga – e completa: “Meninas muito novas se sentiram tocadas de maneira até mais forte”. Terapêutico. Cada vez mais frequentes na cena contemporânea, as investigações no campo da autoficção têm mostrado potência estética e política para além de implicações narcísicas. Cida conta que às vezes ainda tem crises com o projeto – “por que estou fazendo isso?”, pergunta-se. “É o fio da navalha, uma exposição. Mas é querer criar uma experiência comum que vá ter algum valor para ao outro. Esses trabalhos são tão difíceis pela energia que mobilizam, que seria uma loucura fazer pelo ego, por vaidade”, opina. Não que isso exclua as “qualidades terapêuticas” do teatro. “Claro que tem. Faço rituais para me curar e, com isso, curar outras pessoas. Estou tentando buscar mais a curandeira do que a atriz, tocar muito de leve nesse lugar do pajé, que é muito difícil”. Falar a partir de si mesma, como ela fará em “Domingo”, carrega uma urgência e uma efemeridade. Se demorar, “a vida vai tomando outro rumo e aquilo passa”, diz.

Trechos do blog: “Depois de” “Agora vou me deixar envelhecer. Meus peitos murcharem. Meus lábios secarem. Minhas juntas estalarem Minhas orelhas crescerem. Mãos enrugarem. Costas encurvarem. Veias estourarem. Cabelos embranquecerem. Olhos turvarem. Agora vou deixar meu corpo criar raízes. No quintal da casa que construímos. Agora quero virar árvore. Ansiar pelos frutos (...)” “Quando sinto necessidade de falar, pois estar só é ficar calada, falo comigo mesma no espelho velho do lavabo. A que está do outro lado é mais firme que eu, coloca questões, cobra, dá broncas quando precisa. Eu ouço e rio de mim mesma. (...) Nessa casa a solidão é mais bonita, porque a casa foi pensada e feita com tanto amor, que seu colo me preenche quando estou sozinha. A solidão é meu exercício para estar no mundo”.

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