Doce veneno na televisão

No ar em “Alto Astral”, trama das sete da Globo, atriz Cláudia Raia conta como é fazer uma vilã cheia de humor

iG Minas Gerais | anna bittencourt |

Convite. Claudia revela que convite de Silvio de Abreu e atraso no cronograma foram fundamentais para aceitar o papel
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Convite. Claudia revela que convite de Silvio de Abreu e atraso no cronograma foram fundamentais para aceitar o papel

Claudia Raia é uma mulher singular. A personalidade forte e o jeito expansivo contrastam com uma doçura e uma visão de carreira que poucos atores têm. A atriz não nega seus atributos, mas encara a trajetória de forma modesta e tranquila, mesmo ciente de sua autonomia e prestígio dentro da Globo. No ano em que completa 30 anos de história na emissora, a atriz dá vida à excêntrica Samantha, de “Alto Astral”. Convidada por Silvio de Abreu, ela tem um papel de destaque na novela de Daniel Ortiz. “Samantha é uma ordinária, uma típica vilã. Mas é incrível como o humor subverte a vilania”, ressalta.

Natural de Campinas, Claudia começou sua carreira como bailarina. Determinada, seu sonho de infância era, simplesmente, ser a bailarina número 1 do mundo. “Gosto de pensar que só não consegui porque cresci muito”, diz, bem-humorada. Aos 13 anos, foi morar em Nova York, nos Estados Unidos, após ganhar uma bolsa de estudos de dança. Depois, foi para a Argentina, onde ingressou no teatro de revista e começou a enveredar para o ramo das artes cênicas. “Morar fora tão cedo foi determinante para a minha carreira. Foi difícil, trabalhei como vedete e dançando samba em casa noturna, mas me deu certeza de que estava pronta para qualquer coisa”, garante. Quando voltou ao Brasil, ingressou em um musical e, pouco tempo depois, estava na TV, em “Roque Santeiro”, de 1985.

Como surgiu o convite para participar de “Alto Astral”? Silvio de Abreu tinha me falado dessa novela há um ano e meio. Disse que tinha essa personagem, a Samantha Paranormal, que era a minha cara, que eu precisava fazer. Só que, na época, eu estava em cartaz com o musical “Crazy for You” e não poderia me comprometer com uma novela. E então a estreia da novela atrasou. Aí Silvio e Daniel Ortiz me procuraram de novo e insistiram muito para que eu fizesse. E, com muito prazer, aceitei.

E a que você credita essa insistência? Eles acreditam que seria difícil achar outra atriz com esse perfil. Uma que seja forte, tenha um nome e ainda seja histriônica da maneira que sou. E também tem de fazer esse tipo de humor, com um tom mais acima, e ser essa figura bonita, elegante. Essas coisas que a personagem é. É um papel para ser feito sem vaidade nenhuma, é um despudor muito absoluto fazer a Samantha. Eles, de fato, precisavam de alguém com essa disponibilidade.

Como assim? Ela é uma ordinária, né (risos)? Uma 171 da pior qualidade. Ela é insuportavelmente vaidosa, acredita que o mundo gira em torno dela. Quando recebi a sinopse, achei que as pessoas iam odiar a Samantha. Mas é incrível ver como o humor subverte a vilania. No grupo de discussão da novela, por exemplo, ninguém lembra das barbaridades, como sugerir matar a mãe para ficar com a herança, que ela faz. Só lembram das coisas engraçadas.

Samantha está bem acima do tom dos outros personagens da novela. É mais difícil interpretar um tipo desse? Muito mais. Primeiro que, para achar o tom certo, é muito difícil. E, depois que acha, vem a dificuldade maior, que é mantê-lo. A temperatura dela é muito alta e o risco de desandar no meio do caminho é muito alto. Ela é uma palhaça o tempo inteiro, é difícil segurar essa peteca gravando, em média, 15 cenas por dia.

Neste ano, você completa 30 anos de carreira na TV. O que é determinante na hora de decidir se dedicar ou não a uma personagem? Depois de tanto tempo, priorizo lugares em que posso me reinventar. Surpreender e me surpreender. Claro que existem personagens com temperaturas próximas. Até porque não existem 120 tipos de personagem (risos). É um número reduzido de estereótipos. E tem estereótipos que, embora tente fugir, acabo caindo. Até acho que consegui diversificar muito na minha carreira. E acho que só consegui seguir por esse caminho de diferentes personagens quando disse meu primeiro não.

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