Regresso da ilusão

iG Minas Gerais |

acir galvao
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“Perfeita mesmo é a imagem que você tem daquele menino lindo que nunca mais viu”. Essa foi a primeira frase que escrevi na minha agenda do último ano do colégio. Naquela época, a moda era passar todo verão em Cabo Frio, e eu lembro que essa citação se aplicou perfeitamente a um moreno de olhos verdes que minhas amigas e eu acabamos nunca conhecendo. Mas a imagem dele até hoje é inesquecível. De lá pra cá, os requisitos mudaram. A vida ensina que conteúdo vale bem mais do que embalagem. Fui crescendo e comecei a ter o maior pé atrás com os muito bonitos ou muito ricos. Chega a ser preconceito da minha parte: se o cara tem um carro caríssimo, provavelmente deve gostar só de loiras siliconadas, pagode e de conversar sobre futilidades. Já se é muito bonito, só serve pra ser amigo. Sou muito ciumenta pra ficar me estressando com a concorrência, e, por experiência própria, preocupar-se demais com a aparência só pra ficar à altura do galã é perda de um tempo que poderia ser muito mais bem-aproveitado malhando a inteligência. Dizem os psicólogos que ainda crianças formamos em nossa mente uma imagem idealizada da pessoa que gostaríamos de amar. Daí surge o “amor à primeira vista”. Ao bater o olho em alguém que te remeta à tal imagem do subconsciente, surge uma sensação de familiaridade, e aí você enlouquece. Muito científico e nada romântico. Prefiro aquela historinha que eu aprendi nos filmes da Disney. Que um dia o príncipe passa, vê a menina cantando no bosque, se encanta por sua voz e, ao cruzarem o primeiro olhar, uau! Paixão instantânea, amor pro resto da vida. E foi movida por essa ilusão, embora cada dia mais cética, que se passaram anos. Nesse período, alguns príncipes apareceram na minha vida. Uns se transformaram em sapos, outros em bruxos malvados, e outros viraram simplesmente bons amigos. Mas foi então que, já quase me rendendo ao ponto de vista psicológico, sem mais um pingo de inocência e achando que depois que acabava a adolescência a paixão deixava de acontecer, levei um susto que me fez mudar o rumo. Essa história se passou anos atrás, quando inventei de fazer vestibular para cursar uma segunda faculdade, de música. Lembro que acordei revoltadíssima em pleno sábado, às seis da madrugada, depois de ter dormido apenas uma hora e meia, no máximo, por causa do aniversário do último “sapo” que eu tinha arrumado, ao qual eu insisti em ir mesmo sabendo que ele estaria acompanhado. Mas, afinal, ele tinha me convidado com tanto jeitinho... Fui. Porém acordei querendo que um meteoro destruísse aquela faculdade, os vestibulares, as manhãs... Ah, podia destruir logo o mundo inteiro, assim pelo menos eu não teria que acordar cedo nunca mais! E lá fui eu, como se fosse uma zumbi, dirigindo para o fim do mundo (não tinha um lugar mais longe pra colocarem aquela faculdade, não?!), reclamando da vida sem parar. Pra piorar ainda mais minha intolerância, a primeira prova era de aptidão, e individual, e, com a boa ideia que a minha mãe teve de colocar meu nome com uma das últimas letras do alfabeto, eu fiquei lá três horas completamente à toa enquanto esperava me chamarem, tentando disfarçar minhas pálpebras caindo, sendo o mais antipática possível com meus colegas de infelicidade que tentavam puxar assunto, alheios ao meu mau humor... Quando eu já estava achando que não ia sair daquele lugar nunca mais, escutei um nome conhecido! “Sou eu!”, levantei correndo. Aleluia! Vou acabar com isso logo pra poder dormir pra sempre! Minha cama querida, me aguarde, já estou chegando! Fui pelo caminho indicado por uma funcionária que apontou para uma porta: “Você vai entrar na sala 3, quem vai te examinar é o Thiago”. Mal escutei isso e ela me empurrou pra dentro de uma salinha com um piano no fundo e, bem na minha frente, uma imagem completamente irreal, um oásis, um café, um energético, um balde d’água na minha cara. “Meus Deus! Se tivessem me avisado, eu teria acordado mais cedo pra arrumar melhor o cabelo! O que estou fazendo com essa roupa sem graça? Por que eu não passei perfume? Minhas olheiras devem estar terríveis!”, foi o que pensei. Ah, o Thiago... Por essa eu não esperava. Lá estava ele mesmo. O príncipe dos meus sonhos de Bela Adormecida, a imagem materializada do meu subconsciente. “Paula, você tem que cantar uma música, qualquer música, só pra eu ouvir sua voz e sua afinação.” Nossa, igual ao desenho, será que ele vai ficar encantado? E cantei. O mais bonito possível. Soltei a voz como nunca. E ele ficou me olhando cantar... E depois, enquanto eu fazia o resto da prova. Ao final, ele me levou até a porta da sala. Tchau, Paula. Tchau, Thiago. No domingo teve outra prova. Dormi menos ainda. Acordei ainda mais cedo. Cabelo, corretivo, perfume suave de bebê... e nem sinal do Thiago. No mínimo dormi mesmo naquela sala de espera e ele foi o sonho bom. No mínimo foi só pra eu recordar como era tudo antes de a inocência se perder. No mínimo foi só pra ficar com aquela imagem perfeita. Do menino lindo que eu nunca mais vou ver...

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