Experimentando o cinema

Parceria entre a Rede Cataunidos e a escola Lugar de Cinema cria curso de cinema para filhos e netos de catadores

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Convidados. Jeaninne Oppewal e Pablo Stoll inauguram hoje o curso com aula especial
lugar de cinema/divulgação
Convidados. Jeaninne Oppewal e Pablo Stoll inauguram hoje o curso com aula especial

Pablo Stoll, um dos diretores mais representativos do cinema uruguaio contemporâneo, sabe a importância que o contato com os filmes na infância teve na trajetória dele. “Eu comecei no cinema quando tinha 8 anos, num curso para crianças promovido pela Cinemateca Uruguaia, e recordo desse momento com muito carinho”, conta ele.

Ao lado da designer de produção norte-americana Jeannine Oppewal, ele hoje vai compartilhar um pouco de sua experiência com garotos que, como ele em décadas atrás, vão ter a oportunidade de lidar com o universo da cinematografia pela primeira vez. O encontro marca a abertura do projeto Recicla Filmes, que consiste num curso nessa área para filhos e netos de catadores de materiais recicláveis, e é promovido, em Belo Horizonte, pela escola Lugar de Cinema em parceria com a Rede Cataunidos.

Para Stoll, a iniciativa pode despertar nos novos alunos o mesmo encanto que sentiu ao conhecer as etapas da produção audiovisual no seu país aos 8 anos. “Quando nos damos conta de que por trás de todos os filmes há pessoas que os fazem, isso é um momento mágico. Depois, quando começamos a fazer os nossos pequenos trabalhos, visualizamos um outro momento de poder. Experimentar o cinema desde a inocência é o que todos queremos, e mostrar todas essas possibilidades é algo muito intenso”, acrescenta.

A intenção da proposta é que, ao fim de seis meses, os adolescentes e jovens selecionados da capital mineira e de outras cidades do interior do Estado possam chegar ao lugar ressaltado pelo uruguaio. Eles deverão produzir oito curta-metragens que vão ter como tema norteador o ofício dos seus pais e avós.

“Há algumas provocações interessantes nisso. Por um lado, eles vão poder desenvolver um outro tipo de olhar para a atividade que é feita por seus familiares. Outra coisa muito importante é essa aproximação com a arte. É interessante que, por meio desse convívio, cada um deles tenha a chance de experimentar ser um fotógrafo ou um diretor de documentários”, observa Aline Veloso, coordenadora pedagógica do Recicla Filmes.

A tarefa, para a outra coordenadora, Fernanda Izidoro, será acompanhada de desafios não só para os participantes, mas também para a própria equipe do Lugar de Cinema, da qual ela faz parte.

“Nós sempre recebemos pessoas que já têm uma formação profissional nesse campo. Agora vamos trabalhar com alunos iniciantes e resolvemos fazer isso porque consideramos relevante essa causa. Os meninos vão poder conhecer o passo a passo comum à produção de todos os filmes, e essa é uma chance para eles bastante rara. Muitos deles não têm acesso ao que outros podem alcançar com mais facilidade. Interessa a nós, assim, contribuir para a sensibilização do olhar”, observa Izidoro.

Diretor da Lugar de Cinema, Leonardo Andrade Maia ressalta que, além de estimular algumas habilidades nos futuros estudantes, o incentivo à filmagem pode resultar em criações relevantes, não só para eles, mas para a sociedade.

“A ideia não é que eles façam trabalhos didáticos sobre algum processo de reciclagem. Haverá várias oportunidades de diálogo com esses meninos, e a atenção maior será voltar o foco para a possibilidade de se contar histórias. Então, alguns deles vão poder narrar, por exemplo, a trajetória de um relacionamento que tem como pano de fundo esse cenário dos catadores, ou mesmo o percurso de algum desses profissionais que se dedicava a essa prática muito antes de a prefeitura reconhecê-la como necessária e oficial”, frisa Leonardo Andrade Maia.

Em Belo Horizonte desde janeiro, como Stoll, em razão de um curso sobre direção de arte e desenho de produção oferecido por ela, Jeannine Oppewal quer justamente fazer com que esses garotos percebam como é viável a qualquer um levar um pouco do seu próprio mundo à composição de narrativas audiovisuais.

“Todo mundo tem uma história para contar, independentemente de saber disso ou não. O meu foco é dar a esses estudantes uma forma de pensar sobre isso, a partir de algumas ferramentas e algumas regras para que eles possam aprender a contar as suas próprias histórias”, afirma ela.

“Ver é universal. Compartilhar histórias é universal, e cada pessoa pode achar o seu próprio caminho para fazer isso. Basta começar, aprender aos poucos e crescer dentro do seu próprio processo”, completa.

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