Carinho pelos personagens

Allan Ribeiro apresenta seu segundo longa, “Mais do que Eu Possa me Reconhecer”, retrato do artista Darel Valença Lins

iG Minas Gerais | daniel oliveira enviado especial |


Estreia

. O diretor carioca Allan Ribeiro já despontou como uma grande promessa em seu primeiro trabalho, um documentário, em 2012
BIELMACHADO
Estreia . O diretor carioca Allan Ribeiro já despontou como uma grande promessa em seu primeiro trabalho, um documentário, em 2012

O cineasta carioca Allan Ribeiro despontou como uma grande promessa em 2012, com o documentário “Esse Amor que nos Consome”. No ano passado, lançou o curta “O Clube”, que venceu quase tudo no Paulínia Film Festival e seguiu arrebanhando prêmios Brasil afora. E na noite de sexta-feira, apresentou seu segundo longa, “Mais do que Eu Possa me Reconhecer”, dentro da mostra Aurora em Tiradentes. Tiradentes.

Além de serem retratos de artistas – um grupo de artes cênicas no primeiro, um clube de transformistas no segundo, e o artista visual Darel Valença Lins no terceiro – o que os três filmes têm em comum é o grande carinho que Ribeiro parece ter por seus personagens, ao mesmo tempo em que não perde um certo olhar crítico sobre suas inconsistências e paradoxos. “O que eu tento fazer é uma parceria de criação. Não chego de repente para filmar. Curti muito o trabalho d’O Clube, por exemplo, antes de propor o curta”, ele explica.

Esse processo de encantamento fica muito claro em “Mais do que Eu Possa me Reconhecer”. O cineasta conheceu Darel Valença Lins em 2009, ao fazer imagens para o vídeo de uma exposição. E o artista pediu que Ribeiro lhe desse uma cópia do material. Ao chegar na casa do octogenário Darel, ele descobriu um personagem idiossincrático, que vive em uma “solidão de 800 m2”, edita obras de videoarte analogicamente, pinta e desenha, acompanhado quase exclusivamente por seu gato.

O diretor passou a frequentar o “mausoléu” do artista por cerca de um ano para conversar sobre cinema e pegar cópias de filmes. E durante um mês desse período, filmou quatro desses encontros, “sem saber bem por que e sem uma ideia muito clara de filme... Ele é muito sedutor. Achei que estava tendo acesso a algo que era muito difícil e raro, imagens que ninguém tinha visto desse museu vivo dele”, confessa o cineasta.

“Mais do que Eu...” é fruto desse encontro de sedução e provocação entre os dois artistas. Realizador amador, Darel parece querer dirigir o filme em momentos. E, em vez de combater isso, Ribeiro se apaixona pelas incoerências desse personagem que diz não gostar de cinema ou ser diretor, mas já fez mais de 40 vídeos, criando uma interlocução hipnótica na sua contradição, em que a câmera sopra e a montagem morde, lembrando um pouco “Os Dias com Ele”.

“Eu sentia que ele não me levava muito a sério como diretor porque me conheceu como um técnico. Tinha um certo desgosto de eu desdenhar do processo analógico dele e falar que tinha alguma coisa melhor”, explica o diretor. Durante os seis anos em que o filme foi sendo “cozinhado”, porém, Ribeiro reconhece que a admiração de um pelo outro cresceu muito, ainda que o verdadeiro cerne do filme esteja em outro lugar.

“Talvez ele tenha deixado a gente filmar mais para ter companhia do que por achar que fosse dar em um filme mesmo”, revela. Essa solidão que Darel não perde a chance de reiterar, mesmo tendo uma esposa (que não mora com ele), um filho e uma filha, é o centro dessa automitologização que o artista cria em torno de si mesmo: o “mestre de seu domínio”, cercado de objetos e parafernálias que ele faz questão de mostrar para a câmera, mas isolado de todo e qualquer contato humano – e que Ribeiro transforma em um teatro vaidoso e melancólico, construção artística e dor real.

“Não quis mostrar as outras pessoas porque, no fundo, ele sempre volta para aquele momento de solidão dentro daquela casa. Não seria algo real. Mas, claro, é tudo construção. É cena, montagem”, reconhece o diretor, revelando a compaixão e a autocrítica que tornam seu cinema tão instigante.

Incansável, Allan Ribeiro já prepara seu próximo projeto, uma websérie sobre personagens da noite gay carioca, como travestis e transformistas. Segundo ele, a ideia é fazer algo parecido ao que o MIS faz com grandes nomes, como Fernanda Montenegro, uma espécie de arquivo para o futuro. “A gente quer ouvir as memórias dos afetos que elas criam, da arte delas e também dos espaços porque isso não existe em lugar nenhum”, explica.

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