Comida de rua em novas versões

Mais Leve - Depois dos “food trucks”, a nova onda são as “food bikes”

iG Minas Gerais | Maria Teresa Leal |

Luigi Russo em um dos 12 food tooks que vão “invadir” as ruas de Belo Horizonte este ano
Uarlen ValérioI
Luigi Russo em um dos 12 food tooks que vão “invadir” as ruas de Belo Horizonte este ano

Os chamados food trucks são febre em Belo Horizonte. Não é raro encontrar em algum lugar ou evento da cidade aqueles veículos adaptados para ter uma cozinha e produzir e vender alimentos, sejam eles brigadeiros, espetinhos ou tacos mexicanos. Mas a onda de comida gourmet de rua na capital mineira vai ganhar novas configurações. Em breve, as tradicionais Towners e Kombis dividirão as ruas com uma espécie de triciclo motorizado que já ganhou a denominação de “food took”, numa referência às carroças-motocicicletas da Índia (os took-tooks).

E as novidades na gastronomia de rua em Belo Horizonte não devem parar por aí. Em São Paulo, a nova onda após o food truck é a food bike, versão em duas rodas e ambientalmente correta dos food trucks. Há quem aposte que essas bicicletas estilizadas e cheias de charme, que não lembram nada aquelas que vendem doces e pães pela cidade, não demorem a chegar por aqui.

O consultor da área de food trucks em Belo Horizonte, Josias Reis, revela já ter sido procurado por um empresário mineiro, interessado em viabilizar uma bike para vender um “produto orgânico”. Reis reconhece que o relevo da capital mineira, cheio de morros, não é favorável e acredita que o veículo tenha que ser adaptado, movido a eletricidade e equipado com marchas. “Precisa ser uma bike cargo”, sugere. Outra sugestão do consultor é que as bicicletas circulem em bairros mais planos como a Savassi e as regiões da Lagoa Seca, no Belvedere, e Pampulha, ou até mesmo em shoppings e aeroportos.

O paulista Paulo Renato Araújo, que prefere ser chamado de “empreendedor sustentável”, desenvolveu uma bicicleta cargo, com motor elétrico, com base num modelo que trouxe de Copenhague, na Dinamarca. Ela pode ter duas ou três rodas e os valores oscilam de R$ 3.500 a R$ 6.500. Ele afirma já ter sido procurado por dois empresários de Belo Horizonte. Por questões profissionais, ele não revela nomes, mas diz que ambos são donos de restaurante. O primeiro fez apenas uma sondagem sobre custos. Já o segundo, que deve trabalhar no ramo dos cupcakes, solicitou o projeto da bike, que já está na fase do esboço.

Formada em comunicação social, a também paulista Ana Paula Ferreira largou a área para abrir a “Pudim a Gosto”. Com duas food bikes, ela participa de eventos em parques, praças ou festas oferecendo pudins de leite condensado em diferentes versões. Mas é bom lembrar que assim como acontece com os trucks, para ter uma bike food circulando pelas ruas da capital paulista é preciso uma autorização da prefeitura.

Food took

Antenado, o publicitário e chef mineiro Luigi Russo é outro que andou sondando a possibilidade das bikes. Ele é simpático à ideia pela mobilidade e baixo impacto ambiental, mas ainda acha que o relevo de Belo Horizonte é um obstáculo a ser considerado.

Por isso, por enquanto, adiou o projeto de trabalhar com food bike para apostar no food took. Até o final do ano, Russo vai colocar 12 food tooks na rua, sob o slogan “Take aWay” (pegue e leve, em tradução livre). O triciclo motorizado tem cerca de 3,5 m (mais ou menos do tamanho de um Corsa).

O primeiro carregará a marca “Los Niños, Paletas Mexicanas”, uma fábrica mineira que produz picolés grandões (de 120 g) feitos de forma artesanal e com 27 sabores, alguns exclusivos, como o de morango recheado de Nutella e o de Ovomaltine trufado. Nessa primeira fase, três carrinhos estarão disponíveis. Além do carro dos picolés, haverá um de cerveja artesanal e drinques, e um terceiro, cujo produto ainda não foi definido.

O primeiro food truck surgiu em 1872, na cidade de Providence, nos Estados Unidos. O dono vendia tortas e sanduíches a trabalhadores de fábricas. A ideia era oferecer uma comida de baixo custo e rápida. Até o começo do ano 2000, esse comércio ainda carregava o estigma de oferecer uma comida de baixa qualidade. Mas isso mudou com a crise econômica de 2008, que levou muitos restaurantes a fechar suas portas. Sem opção, os chefs recorreram à boa e velha modalidade de fazer comida na rua.

Iguaria mineira é novidade “truck”

O encontro dos carros na praça Leonardo Gutierrez, no bairro Gutierrez, às sextas-feiras, ganhou um reforço: o Gertrudes Gourmet, o Truck do Queijo, a bordo de uma simpática Kombi 1980. O novo truck escolheu como carro-chefe uma das principais iguarias mineiras – o pão de queijo – e ‘brinca’ ao misturar variados tipos de recheios doces e salgados. “Com um produto de fácil preparo, não preciso de uma cozinha ampla e de um carro de grandes dimensões”, explica o empresário Anderson Luís Silva.   O Truck do Queijo oferece quatro cardápios distintos. Os cerca de 20 recheios incluem carne seca com requeijão cremoso, linguiça, pernil aos molhos de maracujá ou jabuticaba e opções sem carne como os patês de ricota e berinjela. Além dos doces, recheados com doce de leite, goiabada com queijo e outras delícias indefensáveis. Os preços variam de R$ 5 a R$ 15. Anderson acredita que os food trucks são uma tendência sem volta. “Ele esteve, recentemente, em São Paulo e ficou impressionado com a força do segmento que trabalha em estacionamentos de universidades e parques. “Muita gente está deixando de almoçar em restaurantes pra ir aos trucks. É um fenômeno que chega com muita força”, relata.   Além do encontro de carros no Gutierrez, há um novo point na cidade: às quartas-feiras os food trucks ocupam a praça Manoel de Barros, no bairro Castelo, região da Pampulha, a partir das 17h.   À espera da legislação    Pelo menos cinco furgões, com caprichados layouts, estão em ponto de bala para começarem a circular em locais públicos, oferecendo desde espetinhos de carnes nobres, vinhos finos a quitutes da culinária japonesa e hambúrgueres gourmets, sem adição de conservantes. O problema é que, por enquanto, os furgões – maiores e mais pesados – só podem circular em eventos fechados como festivais em parques ou locais afastados na região metropolitana. É que o Código de Postura (Lei 8.616 /2003) de Belo Horizonte estabelece um peso máximo de 1.000 kg para os veículos de comida de rua.

A saída para as inconformidades de peso e tamanho dos furgões passa pela aprovação de um projeto de lei do ex-vereador (agora deputado estadual pelo PHS), Marcelo Aro, em tramitação na Câmara Municipal. Já foi aprovado pela Comissão de Legislação e Justiça, mas a perspectiva é de que leve, pelo menos, seis meses até que possa ser sancionado (ou vetado) pelo prefeito Marcio Lacerda. O descumprimento das normas pode gerar apreensão da mercadoria, multa de até R$ 1.514,66 e cassação da licença do serviço. 

Como se aqui fosse Nova York

Profissional que presta consultoria, elabora cardápios, logomarcas, design e construção de food trucks, Josias Reis acredita que os chamados “encontros” dos food trucks (quando os carros se reúnem no mesmo local) contribuem para o sucesso do negócio. “Isso dá um clima de festa, como as tradicionais quermesses que acontecem no interior do Estado. Eventos semelhantes são realizados em larga escala na ilha de Manhattan, tanto em Midtown (setor comercial), quanto em Uptown (setor residencial). Quem não gostaria que, em seu bairro, tivesse uma opção rotativa de alimentação em parques e ruas? Imagine contar com a possibilidade de novos restaurantes casuais a cada dia?”, pergunta Reis.   O casal Gustavo Carvalho e Gabriela Morais – ele, engenheiro ambiental e, ela, bióloga – vieram de Nova Lima para o encontro dos food trucks, no Gutierrez. Fizeram uma espécie de tour gastronômico e aprovaram. “Estava tudo delicioso”, elogiou Gustavo.    Cada vez mais Para Reis, o cenário dos food trucks na capital caminha para atender a dois públicos distintos: o do entretenimento, por meio de encontros em praças; e o de serviços, em regiões comerciais nos horários de almoço. Otimista, ele acredita que novos carros devem ser cada vez mais frequentes nas ruas. A principal prova é que as fábricas, que fazem as adaptações nos carros, que pediam prazos de 30 a 40 dias, agora precisam de seis meses para entregar a encomenda.    O próprio consultor viabilizar um truck e já escolheu o ramo da gastronomia. Mas, por enquanto, guarda segredo. Ao mesmo tempo, auxilia a concretização de outros projetos, como o de uma indústria de alimentos que planeja ter, senão um, vários food trucks na capital. O especialista em gastronomia do Senac, Hans Eberhard Aichinger, vê com bons olhos o advento dos food trucks em Belo Horizonte. Mas alerta: “É uma proposta diferente de um carrinho de cachorro quente ou de pipoca. Eles ofertam uma gama maior de pratos, o que exige mais funcionários e investimentos”, lembra.  

 

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