A insustentável leveza do ego

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Fox Filmes/Divulgacao
"Birdman", primeira comédia do diretor e produtor mexicano Alejandro González Iñárritu, está indicado a nove Oscars

Há muitas cenas de “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, que estreia na cidade (confira roteiro nesta página), em que os personagens aparecem de cueca. Uma delas, maximização de um pesadelo universal, traz o protagonista Riggan Thomas (Michael Keaton) correndo em suas roupas de baixo pela Times Square, em Nova York. Elas não são gratuitas, mas, sim, uma ótima representação visual do tema central do filme: a extrema exposição física e emocional, e os efeitos dela sobre o ego de um indivíduo.

E o motivo pelo qual o longa é tão bem-sucedido nessa análise é porque escolhe como protagonista alguém que faz dessa prática seu ofício diário: um ator. Atuar é dissecar publicamente os sentimentos e fantasmas mais profundos de um personagem. Para fazer isso bem, um ator precisa encontrar essas emoções e fragilidades dentro dele mesmo. E ao realizar isso, ele muitas vezes expõe seus piores traumas e inseguranças para quem quiser ver – e julgar em jornais, revistas e blogs.

O efeito disso sobre o ego – essa distância entre quem nós somos, o que queremos ser e como queremos ser vistos – é a razão pela qual atores são seres tão frágeis emocionalmente. E é isso que o cineasta Alejandro G. Iñárritu investiga na história de Riggan. Assombrado por sua performance como o super-herói Birdman do título décadas atrás, o ator quer provar que continua relevante, escrevendo, dirigindo e protagonizando uma peça na Broadway. E o longa acompanha o protagonista nos dois dias que antecedem a estreia do espetáculo.

O longa é um mergulho no labirinto da psique de Riggan que, entre suas aspirações megalômanas, suas inseguranças e frustrações, começa a perder a si mesmo no processo. Esse desfacelamento é marcado pela voz do tal Birdman, que o protagonista escuta em sua mente (e que funciona como seu ego), e pela recorrente imagem de Riggan (e dos outros atores) olhando no espelho – mais uma vez a distância entre realidade e a imagem que enxergamos de nós mesmos.

Mas a grande sacada da produção é que, para que o espectador realmente se sinta na pele e dentro da mente do protagonista, Iñárritu encena 90% do filme como um longo e único plano-sequência. Mesmo correndo o risco de ser uma distração, o poder do recurso de fazer o espectador sentir a ebulição desesperadora da mente de Riggan é inquestionável. E os desafios de iluminação, das diferentes trucagens técnicas e efeitos visuais realizados com maestria pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki – completamente diversos dos apresentados por “Gravidade”, que lhe rendeu o Oscar no ano passado – confirmam o mexicano como um dos maiores gênios do cinema hoje.

Os melhores técnicos do mundo, porém, não fariam isso funcionar sem um elenco de primeira. Ele é liderado pelo tour de force de Keaton que, alimentando-se do fato de nunca ter repetido seu sucesso como Batman, escancara em Riggan as neuroses de todo ator – numa performance e num longa similiares a Juliette Binoche em “Acima das Nuvens”. E devorando com voracidade um roteiro coeso, em que todos os personagens usam o espetáculo como um remédio para o ego, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Amy Ryan e companhia compõem um elenco quase impecável.

O único deslize do roteiro de “Birdman” é o “mal dos mil finais”. O filme perde duas ou três chances de encerrar com chave de ouro para emendar cenas que, mesmo boas, repetem temas que a produção já deixou bem claros até ali, e a tornam desnecessariamente cansativa. Um sinal de que Iñárritu pode ter amadurecido, mas não perdeu sua mão pesada – especialmente na análise macro que faz da internet, dos críticos e da cultura pop virtual, que não funciona tão bem quanto o aspecto micro do estudo de personagem do filme. Mas esse estudo e sua ideia de que entregar a vida no palco é a única forma de satisfazer o ego e as ambições de um artista são potentes o bastante para obliterar qualquer defeito.

 

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