Na cabeça de Milton Machado

Retrospectiva - Mostra do multiartista carioca chega ao CCBB com mais de cem obras

iG Minas Gerais | Priscila Brito |

MILTON MACHADO/DIVULGAÇÃO
"Módulo de Destruição Atravessado por Nômade (MD Nômade)"

Milton Machado é apresentado por consenso como artista plástico, mas o carioca diz ser “algo entre o escritor e uma coisa que não saberia dizer o nome”. Para deixar menos vaga a autodefinição, ele usa como exemplo Nômade, o personagem principal da obra-em-progresso “História do Futuro”, um dos trabalhos mais representativos de sua produção artística, iniciado em 1978. “Ele é uma esfera, tem o poder de se movimentar com mais facilidade, e o nômade tem como característica a mobilidade. Ele confirma a afirmação de Van Gogh de que a vida é redonda. Eu tenho interesses muito variados, para todos os lados. Não sou um especialista”, define o arquiteto por formação (com passagem de um ano pela engenharia), doutor em artes visuais, músico e escritor. 

A partir da próxima quarta-feira (4), ele expõe no CCBB mais de uma centena de trabalhos produzidos ao longo de 45 anos que evidenciam o nomadismo de gêneros e linguagens: são pinturas, desenhos, esculturas, fotografias, vídeos e outros formatos reunidos na mostra “Cabeça”.   Com curadoria do próprio Milton, a mostra traz trabalhos fundamentais e inéditos de sua trajetória. Na primeira categoria, obras que concentram a multiplicidade de linguagens, como o já citado “História do Futuro”, um estudo especulativo em texto com desenho, escultura e fotografia sobre Pangeia, o continente único formado há 300 milhões de anos e que, tempos depois, se fragmentaria nos cinco continentes atuais. “É um trabalho em progresso que eu espero que nunca termine”, diz. Também entre os trabalhos de referência, “21 Formas de Amnésia” (1991), originalmente um desenho em pastel sobre cartão que foi recortado em exatos 1.750 pedaços e posteriormente rearticulado em 21 colagens. “Tem muito a ver com destruição produtiva-criativa. Embora comece como desenho, é também um trabalho que fala de pintura que acaba virando escultura”, observa o artista.   “Paraíso Perdido” Entre os trabalhos inéditos, “Paraíso”, uma homenagem à obra “Paraíso Perdido”, do poeta inglês John Milton, de 1674. Em gestação na mente de Milton há muitos anos, a obra finalmente ganhou existência graças à vinda da exposição para Belo Horizonte – a mostra estreou no Rio de Janeiro no ano passado.    Segundo o artista, o trabalho precisava de um espaço “esquisito” para ser exposto e as salas do CCBB na capital dispunham da esquisitice necessária. “É um espaço muito complicado, labiríntico. É tudo muito entrecortado. Tem uma circulação central que distribui para as salas, o que causa certos sobressaltos. Tem um pouco a ver com Minas Gerais. Cada sala é uma extração”, teoriza Milton, que também assina a expografia da mostra dada, como ele próprio diz, sua mania por montar exposições e o interesse por trabalhar a distribuição de objetos pelo espaço - heranças da formação em arquitetura.    Ele não dá detalhes de “Paraíso” “para não entregar o ouro ao bandido”, mas adianta que ela tira proveito da esquisitice da sala, um ambiente retangular parecido com um trem, “para propor uma coisa igualmente esquisita”.   Há também produção audiovisual na seleção de obras, exatos dez vídeos feitos em parceria com outros artistas, o que faz Milton notar que ainda há terrenos para onde seu nomadismo pode ser levado. “Eu não tenho câmera, não sei fazer vídeo, mas antes de ser arquiteto eu sempre quis ser cineasta”, confessa. Imediatamente, o não-especialista de interesse múltiplos cogita também explorar a música. “Quem sabe um musical?”, brinca.   Milton Machado CCBB (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, 3431-9400). De 4 de fevereiro a 30 de março. De quarta à segunda, das 9h às 21h. Gratuita.

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